Na filosofia antiga, o ceticismo se desenvolveu em torno de uma dificuldade: como decidir entre argumentos opostos que parecem igualmente convincentes? A suspensão do juízo é uma resposta a essa dificuldade. Ela precisa ser distinguida tanto da afirmação de que nada pode ser conhecido quanto do simples desinteresse por investigar.

Ceticismo vem do grego sképsis, que quer dizer investigação, exame. O cético, na origem, não era o que nega tudo. Era o que continua procurando porque ainda não encontrou. Na filosofia, ceticismo é a posição que suspende o juízo quando não encontra razão suficiente para afirmar ou negar.

Pirro e a suspensão do juízo

O fundador do ceticismo antigo é Pirro de Élis (c. 360–270 a.C.). Ele não escreveu nada. O que sabemos vem do seu discípulo Tímon e de biografias tardias, sobretudo a de Diógenes Laércio (livro IX). Pirro teria acompanhado Alexandre, o Grande, na expedição à Índia e voltado convencido de que as coisas são indiferentes, instáveis e indetermináveis. Por isso nem as sensações nem as opiniões dizem a verdade ou a mentira sobre elas.

O que fazer, então? Não se inclinar para lado nenhum. Pirro chamou isso de não afirmar. O resultado prometido era a imperturbabilidade. Diógenes Laércio conta (IX, 68) que, numa tempestade no mar, ele apontou aos companheiros apavorados um porquinho que continuava comendo no navio, como exemplo da calma que o sábio deveria ter. Muitas dessas histórias são lendárias, mas indicam o espírito: o ceticismo antigo era uma terapia da alma.

Sexto Empírico: a máquina de equilibrar argumentos

O ceticismo pirrônico chegou até nós principalmente pelas obras de Sexto Empírico, médico grego do século II ou III d.C. Nas Hipotiposes Pirrônicas Amazon (Esboços pirrônicos), ele define o ceticismo como a capacidade de opor, de qualquer maneira, as aparências e os juízos, de modo que, pelo peso igual dos argumentos contrários, chegamos primeiro à suspensão do juízo (epoché) e depois à tranquilidade (ataraxía) (livro I, 8–10).

Repare na ordem: o cético não começa querendo duvidar. Ele começa querendo a verdade, porque as contradições o perturbam. Ao descobrir que para cada argumento existe outro de força igual, ele suspende o juízo, e então, conta Sexto, a tranquilidade aparece "como a sombra segue o corpo" (I, 29). Sexto compara isso ao pintor Apeles, que, desistindo de pintar a espuma de um cavalo, jogou a esponja na tela e acabou conseguindo o efeito por acaso (I, 28).

Para chegar à suspensão, Sexto organiza os "modos", que são esquemas de argumento. Os dez modos atribuídos a Enesidemo (I, 36–163) mostram que as coisas aparecem diferentes conforme o animal, a pessoa, o órgão dos sentidos, o estado de saúde, a posição, a quantidade, os costumes. Os cinco modos de Agripa (I, 164–177) são mais secos e ainda são discutidos em epistemologia: o desacordo entre opiniões, a regressão ao infinito, a relatividade, a hipótese arbitrária e o círculo vicioso. Qualquer justificação, dizem eles, ou se apoia em outra sem fim, ou para num ponto não provado, ou anda em círculo.

E como viver sem afirmar nada? Sexto responde que o cético segue as aparências sem dogmatizar: come quando tem fome, obedece às leis e costumes do lugar, pratica uma profissão (I, 21–24). Ele não diz "o mel é doce em si"; diz "o mel me parece doce". É uma vida possível, mas, como veremos, deixa questões abertas.

A Academia de Platão vira cética

Há uma surpresa nessa história. A escola fundada por Platão, a Academia, também se tornou cética por quase dois séculos. Arcesilau (c. 316–241 a.C.) retomou o Sócrates que dizia "só sei que nada sei" e transformou a investigação socrática em suspensão do juízo. Carnéades (c. 214–129 a.C.) foi mais longe: numa embaixada a Roma, em 155 a.C., fez num dia um discurso a favor da justiça e no outro um discurso contra, para escândalo de Catão, o Velho.

Carnéades propôs que, na falta de certeza, podemos agir pelo "provável" ou persuasivo. Essa ideia passou para Cícero, que se dizia acadêmico, e por meio dele chegou à Idade Média e ao Renascimento.

Agostinho responde

Antes de se converter, Santo Agostinho foi seduzido por essa Academia. Um dos seus primeiros livros depois da conversão é justamente Contra os Acadêmicos Amazon (386), em que ele mostra que algumas verdades resistem a qualquer dúvida: as da lógica, as da matemática e, sobretudo, a da própria existência.

Na Cidade de Deus Amazon (XI, 26), ele resume o argumento numa fórmula: si fallor, sum, "se me engano, existo". Quem duvida, existe, porque não poderia se enganar se não existisse. Mais de mil anos depois, Descartes chegaria a uma conclusão parecida por outro caminho.

Montaigne: "que sei eu?"

O ceticismo antigo ficou quase esquecido até que, em 1562, as Hipotiposes Amazon de Sexto foram traduzidas para o latim. Quem mais aproveitou a novidade foi Michel de Montaigne (1533–1592). Em 1576, ele mandou cunhar uma medalha com uma balança em equilíbrio e a palavra grega epékhō, "eu me abstenho" (de julgar). A fórmula que ficou famosa, Que sais-je? Amazon ("que sei eu?"), está nos próprios Ensaios Amazon , no capítulo 12 do livro II.

O ensaio mais longo dos seus Ensaios, a "Apologia de Raymond Sebond" (livro II, cap. 12), é um passeio cético pela fraqueza da razão humana: os sentidos enganam, os filósofos se contradizem, os costumes mudam de um país para outro, os animais às vezes parecem mais sensatos que nós. A conclusão de Montaigne é a humildade. Ele se mantém católico e usa a dúvida contra a arrogância dos que querem medir Deus pela régua da razão. Os estudiosos chamam essa posição de fideísmo: a razão não chega lá, então nos apoiamos na fé.

A posição tem charme e tem riscos. A tradição católica, que afirma que a razão pode conhecer a existência de Deus pela luz natural (Concílio Vaticano I, Dei Filius Amazon , cap. 2), sempre olhou o fideísmo com desconfiança. Montaigne é um ótimo companheiro de leitura. Não é um bom guia para saber o que a razão pode alcançar.

Descartes usa a dúvida como ferramenta

René Descartes, nas Meditações Amazon (1641), levou a dúvida ao extremo de propósito: os sentidos podem enganar, os sonhos podem parecer reais e a hipótese do gênio maligno põe em questão até as contas de matemática (Meditação I). A dúvida é um método para encontrar algo que resista a ela. Na Meditação II, a primeira certeza é formulada como "eu sou, eu existo", necessariamente verdadeira enquanto é pensada. A expressão "penso, logo existo" aparece no Discurso do Método, parte IV (1637).

A diferença está no papel da dúvida. Descartes a emprega provisoriamente para estabelecer certezas. O pirrônico suspende o assentimento quando os argumentos se equilibram, mas continua investigando: é assim que Sexto distingue sua posição logo na abertura das Hipotiposes (I, 1–7). Hume, no século XVIII, defendeu outra forma de moderação. No Tratado da Natureza Humana Amazon (I.4.7), descreve como a convivência e as atividades comuns interrompem suas perplexidades céticas; na seção XII da Investigação sobre o Entendimento Humano Amazon , recomenda um ceticismo mitigado, que limite as pretensões da razão sem paralisar a vida.

Ceticismo não é relativismo

As duas palavras andam juntas nas conversas, mas dizem coisas diferentes. O relativista afirma algo: que a verdade depende de quem a vê, da cultura, da época. O cético pirrônico não afirma nem isso. Ele diz apenas que não sabe e que continua procurando. Sexto, aliás, criticava os que afirmavam dogmaticamente que nada se pode saber; para ele, isso também era dogma.

Sobre o relativismo, veja o que é relativismo. E, para o que as teorias clássicas dizem sobre aquilo que o cético diz não alcançar, leia sobre a verdade.

O ceticismo come a si mesmo?

A objeção mais antiga ao ceticismo é a da autorrefutação. Se alguém diz "não podemos saber nada", essa frase também é uma afirmação de saber, e se destrói. Os pirrônicos conheciam o argumento e respondiam que suas frases eram como um purgante, que sai do corpo junto com aquilo que expele (Sexto, I, 206; II, 188). A resposta é engenhosa, mas não convence todo mundo: se o cético não afirma nem a própria posição, fica difícil saber o que ele está defendendo.

Há também uma objeção prática, que Chesterton expôs em Ortodoxia Amazon (1908, cap. 3), sob o título "O suicídio do pensamento". Para ele, a dúvida sem limites paralisa a razão que prometia libertar. Uma mente que duvida de tudo acaba incapaz de duvidar de nada com seriedade, porque não tem mais onde se apoiar.

Também cabe perguntar se a busca de tranquilidade oferece orientação suficiente para a vida moral. Essa é uma objeção filosófica aos fins do pirronismo, e não a constatação de que Sexto abandona a investigação. A ataraxia cética e a tranquilidade procurada por Epicuro têm contextos e fundamentos diferentes. Para aprofundar o segundo caso, Olavo de Carvalho examina a ética e a lógica de Epicuro nos capítulos 3 e 4 do livro II de O Jardim das Aflições.

Nada disso faz do ceticismo um inimigo. A dúvida honesta é parte da vida intelectual, e o próprio Santo Tomás começava cada artigo da Suma Amazon com as objeções mais fortes contra a sua tese. O problema começa quando a dúvida deixa de ser instrumento para procurar a verdade e vira desculpa para não procurá-la.

Outros sentidos da palavra

No dia a dia, ceticismo é só a tendência de desconfiar e pedir provas antes de acreditar, um sentido bem mais fraco que o filosófico.

Ceticismo profissional é um termo técnico de auditoria e contabilidade. A NBC TA 200 (R1), do Conselho Federal de Contabilidade, item 13(l), o define como postura questionadora, atenta a possíveis distorções por erro ou fraude e crítica na avaliação das evidências. Isso não exige conferir individualmente todos os números: a auditoria pode empregar amostragem, disciplinada pela NBC TA 530. Exige avaliar a suficiência e a confiabilidade das evidências obtidas.

Ceticismo religioso costuma designar a dúvida ou a descrença sobre afirmações religiosas, e às vezes é usado como sinônimo de agnosticismo. No sentido estrito, o cético religioso suspende o juízo sobre a existência de Deus, o que é diferente do ateu, que a nega. Montaigne mostra que houve também quem usasse o ceticismo a favor da fé. A tradição católica, por sua vez, sustenta que a fé não exige abandonar a razão, e que razão e fé se ajudam.

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