Aos dezoito anos, estudante de retórica em Cartago, Agostinho leu o Hortênsio de Cícero e saiu dele com vontade de buscar a sabedoria. Decidiu então abrir as Escrituras, para ver o que eram. Achou o texto pobre. Conta nas Confissões (III, 5) que a Bíblia lhe pareceu indigna de ser comparada à dignidade de Cícero, e que o seu orgulho fugia da simplicidade dela.
A cena serve de aviso para quem quer ler a Bíblia na formação intelectual: o primeiro obstáculo costuma ser o próprio leitor culto. Na tradição católica, ler a Bíblia como intelectual é estudá-la livro a livro, numa tradução católica com notas, pelos critérios que a Igreja dá para interpretá-la (gêneros literários, unidade da Escritura, Tradição e analogia da fé), e manter ao lado a oração da lectio divina, que o estudo prepara sem substituir.
O orgulho do leitor culto
Agostinho não foi o único. São Jerônimo, que anos depois faria a tradução latina conhecida como Vulgata, conta numa carta a Eustóquio (carta 22, 30) que jejuava para depois ler Cícero e que, quando voltava aos profetas, achava o estilo deles rude. Numa febre, teve uma visão: foi levado ao tribunal do Juiz e ouviu que era ciceroniano, e não cristão. Bento XVI lembrou essa visão na audiência geral de 7 de novembro de 2007, dedicada ao santo.
Os dois tinham o mesmo problema: liam a Bíblia com os critérios de gosto que a escola de retórica lhes dera, e o texto não passava no exame. Só depois perceberam que a régua estava errada. A Imitação de Cristo resume o conselho num capítulo curto sobre a leitura das Escrituras (livro I, cap. 5): procure nelas a verdade, e não a beleza das palavras; leia com o mesmo espírito com que foram escritas; busque o proveito antes da sutileza; leia com humildade, sem querer fama de sábio.
Para quem estuda, isso tem uma consequência prática. Antes de discutir a Bíblia, convém deixá-la falar inteira, com o seu modo próprio de narrar, legislar, rezar e profetizar. A erudição vem depois e ajuda muito, desde que não vire filtro.
O ponto em que Adler e Van Doren param
Como Ler Livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren, ensina a ler quase tudo: romances, poemas, história, ciência, filosofia. No capítulo sobre filosofia, numa seção dedicada aos livros "canônicos", os autores chegam à Bíblia lida como Palavra de Deus e dizem que ali precisam parar. Para quem tem fé, explicam, ler o livro sagrado é o problema mais difícil de todo o campo da leitura, e há mais livros escritos sobre como ler a Escritura do que sobre todos os outros aspectos da arte de ler juntos.
O que dizem ali vale para todo livro lido desse modo, religioso ou não: os autores lembram que os marxistas ortodoxos leem as obras de Marx de modo parecido. O leitor fiel de um livro desses, dizem, é obrigado a encontrar sentido e verdade no texto e, quando não consegue sozinho, a procurar quem consiga, seja um padre, um rabino, um superior no partido ou um professor. Para os autores, ele lê "sem liberdade", mas recebe em troca uma satisfação que talvez nenhum outro livro dê. A tradição católica descreve a mesma situação de outro modo. A constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, diz que o Magistério da Igreja não está acima da palavra de Deus, mas a serve, ensinando só o que foi transmitido (n. 10). O leitor católico tem um intérprete que trabalha a favor do texto, e uma comunidade inteira lendo com ele.
O que o método de Adler oferece continua valendo para a Bíblia: ler livros inteiros, perguntar de que trata cada um, perceber a estrutura, distinguir os gêneros. Quem quer aplicar essas regras de leitura analítica pode partir do guia sobre como usar o livro de Adler e Van Doren. Ao método faltam os critérios próprios de um livro que a Igreja recebe como inspirado, e é a Igreja quem os dá.
Qual Bíblia usar para estudar
A Bíblia católica tem 73 livros: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo, segundo a lista que o Catecismo da Igreja Católica traz no n. 120. A diferença em relação às edições protestantes está em livros como Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois de Macabeus, além de trechos de Ester e Daniel. Para estudar, use uma tradução católica completa.
O Concílio pede que as traduções sejam feitas sobretudo a partir dos textos originais (Dei Verbum, 22). Duas edições brasileiras atendem bem a quem está começando:
- Bíblia de Jerusalém (Paulus). Traduzida diretamente das línguas originais, traz introduções a cada livro, notas de rodapé extensas, referências cruzadas à margem e mapas. É a escolha natural para estudo, porque as notas explicam o contexto histórico, os gêneros e as passagens difíceis.
- Bíblia Ave-Maria (Editora Ave-Maria). Publicada pela primeira vez em 1959, tem linguagem acessível e notas de rodapé. Serve bem para a leitura diária e para a oração.
Dá para usar as duas: a de Jerusalém na mesa de estudo, a Ave-Maria na cabeceira. O importante é escolher uma para o estudo e ficar com ela, para que as notas e as introduções virem um mapa conhecido.
Os critérios da Dei Verbum para interpretar
Para quem estuda, o ponto de partida é o número 12 da Dei Verbum. Ele começa pelo lado humano: Deus falou por meio de homens e à maneira humana, e por isso o intérprete precisa investigar o que os autores sagrados quiseram dizer. Isso exige atenção aos gêneros literários, porque a verdade é dita de um modo nos textos históricos, de outro nos proféticos, de outro nos poéticos, e exige atenção aos modos de sentir, dizer e narrar do tempo em que cada autor escreveu.
Em seguida, o texto acrescenta que a Escritura deve ser lida e interpretada no mesmo Espírito em que foi escrita, e dá três critérios, que o Catecismo retoma nos números 112 a 114:
- O conteúdo e a unidade de toda a Escritura. Os livros são muitos, mas o desígnio de Deus é um só, e Cristo está no centro dele. Uma passagem isolada se entende melhor à luz do conjunto.
- A Tradição viva de toda a Igreja. O Catecismo cita uma sentença dos Padres: a Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que em instrumentos materiais.
- A analogia da fé. As verdades da fé se iluminam umas às outras, e uma leitura que contradiz o conjunto do que a Igreja crê está mal encaminhada.
A Dei Verbum também explica por que esses critérios não se separam: Tradição, Escritura e Magistério estão unidos de tal modo que nenhum se sustenta sem os outros (n. 10). O próprio Agostinho, já bispo, disse a frase que o Catecismo cita no n. 119: ele não acreditaria no Evangelho se não o movesse a autoridade da Igreja católica. O rapaz que achou a Bíblia pobre aprendeu a lê-la dentro da Igreja.
Os quatro sentidos da Escritura
A tradição distingue dois sentidos no texto bíblico, o literal e o espiritual, e divide o espiritual em três: alegórico, moral e anagógico (Catecismo, 115 a 118).
O sentido literal é o que as palavras dizem, descoberto pela boa exegese. O Catecismo cita São Tomás de Aquino: todos os sentidos se fundam no literal. Por isso o estudo histórico e filológico tem lugar garantido na leitura católica. Os outros três partem dele. No sentido alegórico, os acontecimentos se entendem em Cristo: a travessia do Mar Vermelho, por exemplo, é sinal da vitória de Cristo e do Batismo. O sentido moral mostra como agir. O anagógico aponta para a vida eterna.
Um dístico medieval, que o Catecismo reproduz, resume os quatro: a letra ensina os fatos; a alegoria, o que crer; a moral, o que fazer; a anagogia, para onde tender. Para quem está começando, basta guardar a ordem: primeiro entender o que o texto diz no seu tempo, depois perguntar o que ele diz da fé, da vida e do fim.
Erros comuns de quem estuda sozinho
Quatro desvios aparecem com frequência em quem começa a estudar a Bíblia por conta própria.
O primeiro é o versículo solto. Uma frase tirada do capítulo, do livro e do conjunto da Escritura pode servir para provar quase qualquer coisa. O critério da unidade da Escritura existe para evitar isso.
O segundo é tratar a Bíblia só como literatura antiga. Ela tem gêneros, estilos e contexto histórico, e o estudo literário ajuda muito. Mas a Igreja a recebe como inspirada: segundo a Dei Verbum, os livros sagrados ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para a nossa salvação, quis que fosse consignada neles (n. 11). Ler a Bíblia como um documento qualquer deixa de fora aquilo que a torna Escritura.
O terceiro é a interpretação particular contra a leitura da Igreja. O estudo pessoal pode descobrir muita coisa, e a Igreja o incentiva. Ao mesmo tempo, como lembra o Catecismo no n. 119, o juízo último sobre a interpretação cabe à Igreja, que recebeu a missão de guardar e interpretar a Palavra de Deus.
O quarto é deixar a oração para depois. O estudo rende mais quando o estudante também reza com o texto.
Estudo e lectio divina na mesma vida
O estudo responde a perguntas de inteligência. A lectio divina é oração. Bento XVI descreve os passos dela na exortação Verbum Domini (n. 87), os quatro primeiros com uma pergunta:
- Lectio (leitura): o que diz o texto bíblico em si?
- Meditatio (meditação): que nos diz o texto bíblico?
- Oratio (oração): que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra?
- Contemplatio (contemplação): qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede?
- Actio (ação): a leitura se completa quando leva a doar-se aos outros na caridade.
O primeiro passo pede um conhecimento autêntico do que o texto diz, e é aí que o estudo entra. Bento XVI adverte que, sem esse momento, o texto corre o risco de virar pretexto para os próprios pensamentos. Por isso o estudo prepara a lectio, e a lectio dá ao estudo a direção certa. A Dei Verbum lembra o mesmo com uma frase de Santo Ambrósio: a Deus falamos quando rezamos, e a Ele ouvimos quando lemos as palavras divinas (n. 25).
Na prática, convém separar os dois tempos. Um tempo de estudo, com caderno, notas da Bíblia de Jerusalém e Catecismo ao lado. Outro, mais curto, de oração com um trecho pequeno, de preferência o Evangelho da missa do dia. A Igreja oferece a Palavra na liturgia junto com o Corpo de Cristo, como lembra a Dei Verbum (n. 21), e acompanhar as leituras da missa é um modo simples de ligar o que se estuda ao que se reza. Na nossa leitura, quem estuda e não reza corre o risco de Agostinho em Cartago, e quem reza sem estudar fica com menos recursos para as objeções que a vida intelectual traz.
Um plano simples para começar
Para quem estuda sozinho, sugerimos este caminho:
- Comece por um Evangelho inteiro. Marcos é curto e direto. Leia a introdução da Bíblia de Jerusalém aos Evangelhos sinóticos antes e as notas durante.
- Leia livros inteiros. É o conselho de Adler aplicado à Escritura, e é o que o critério da unidade pede.
- Passe para os Atos e uma carta de Paulo. Romanos é exigente; Filipenses é uma boa porta.
- Volte ao Antigo Testamento pelo Gênesis e pelos Salmos. O Gênesis dá a base da história; os Salmos ensinam a rezar com as palavras da própria Escritura.
- Tenha o Catecismo por perto. Quando uma passagem toca uma questão de fé, procure o tema no Catecismo: as notas dele indicam as passagens bíblicas de cada ponto e mostram como a Igreja as lê.
- Anote perguntas. Elas vão orientar as leituras seguintes, inclusive dos Padres e dos teólogos.
Depois dessa base, os comentadores entram com proveito. Agostinho é um bom ponto de partida, e as próprias Confissões mostram como ele passou a ler a Escritura depois da conversão, citando-a com frequência. Para montar uma estante cristã ao redor da Bíblia, a seleção de livros cristãos para a formação intelectual indica por onde seguir.
No capítulo final, a Dei Verbum cita São Jerônimo, o mesmo da visão do tribunal: ignorar as Escrituras é ignorar Cristo (n. 25). Para um intelectual católico, ler a Bíblia faz parte de conhecer aquele em quem crê.
Leitura recomendada
- Bíblia de Jerusalém Amazon ↗ (Paulus, edição média encadernada). Para estudo: introduções, notas extensas, referências cruzadas e mapas.
- Bíblia Sagrada Ave-Maria Amazon ↗ (Editora Ave-Maria). Para a leitura diária e a oração, com linguagem acessível.
- Catecismo da Igreja Católica Amazon ↗ (Edições Loyola, edição típica vaticana). Os números 101 a 141 tratam da Escritura e reúnem os critérios de interpretação.
- Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis (Ecclesiae). O capítulo 5 do livro I resume em poucas linhas a atitude certa diante da Escritura, e os demais formam o leitor por dentro.
- Confissões, de Santo Agostinho (Ecclesiae). Mostra o leitor orgulhoso que se tornou um dos grandes intérpretes da Bíblia.
- Como Ler Livros, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren (Kírion, 2025). Dá o método de leitura analítica que serve também para os livros bíblicos.
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