Sentir o calor que vem de um forno é diferente de ouvir uma explicação sobre temperatura. A experiência fornece um contato que a descrição não substitui. Mas conhecer uma sensação e demonstrar que dois mais dois são quatro são operações iguais? A relação entre experiência e conhecimento está no centro do debate sobre o empirismo.
Empirismo é a família de posições filosóficas que atribuem à experiência um papel fundamental na origem das ideias e no conhecimento do mundo. Seus representantes clássicos incluem John Locke, George Berkeley e David Hume, que divergem sobre o alcance da razão e sobre o que a experiência permite afirmar. A palavra vem do grego empeiría, experiência. A crítica às ideias inatas não significa que todos esses autores neguem as capacidades da mente ou a demonstração matemática.
A folha em branco de Locke
O texto fundador é o Ensaio sobre o entendimento humano Amazon (1690), de John Locke. O primeiro livro inteiro é dedicado a combater a doutrina das ideias inatas. No segundo, Locke propõe a imagem que ficou famosa (livro II, cap. 1, §2): "Suponhamos que a mente seja, como dizemos, papel em branco, sem nenhum caractere, sem nenhuma ideia. Como ela vem a ser provida?". E responde "numa palavra": da experiência. É nela que todo o nosso conhecimento se funda.
A experiência, para Locke, tem duas fontes. A sensação, que traz as qualidades das coisas externas (o amarelo, o quente, o duro), e a reflexão, a percepção que a mente tem das próprias operações: pensar, duvidar, querer. A tradição chamou isso de tabula rasa, a tábua raspada em que nada está escrito ainda.
Hume leva o princípio até o fim
George Berkeley desenvolveu uma forma de idealismo a partir da análise das percepções. Nos Princípios do conhecimento humano Amazon , de 1710, sustenta que a existência das coisas sensíveis consiste em serem percebidas: esse est percipi. Isso não significa que o mundo desapareça quando uma pessoa fecha os olhos. Na filosofia dele, as coisas não dependem da percepção de um observador humano particular; Deus tem um papel decisivo na continuidade e na ordem do mundo percebido.
David Hume distingue impressões, como a sensação de calor, e ideias, como a lembrança dessa sensação. Na Investigação sobre o entendimento humano Amazon , de 1748, sustenta que nossas ideias simples derivam de impressões. Para esclarecer uma ideia obscura, propõe investigar a impressão da qual ela se originou. Hume distingue ainda relações de ideias, como as proposições matemáticas, de questões de fato, como aquilo que esperamos que aconteça no mundo. Sua crítica à indução não é uma negação de toda certeza matemática.
Hume examina uma exceção ao princípio de que as ideias derivam de impressões. Imagine alguém que conhece muitas cores, mas nunca viu um tom específico de azul. Diante de uma sequência de tons com essa lacuna, essa pessoa talvez consiga imaginar a cor ausente. Hume reconhece o caso e o considera singular demais para abandonar o princípio geral.
Aplicado à causalidade, o teste dá um resultado incômodo. Você vê a bola de bilhar bater na outra e a segunda se mover; vê isso cem vezes. Mas nunca vê a conexão necessária entre uma coisa e outra, só a repetição. Hume insiste que não há contradição em imaginar o contrário: quando vejo uma bola rolando em direção a outra numa mesa lisa, posso conceber facilmente que ela pare ao tocá-la (seção V, parte II). Se o contrário é concebível, a razão sozinha não prova que o efeito virá. O que nos faz esperar o mesmo efeito amanhã, conclui Hume, não é um raciocínio, e sim o hábito: "O costume é, portanto, o grande guia da vida humana" (seção V). É o problema da indução, que até hoje a filosofia da ciência discute.
A investigação de Hume também contém uma defesa da vida comum. No começo da obra, ao formular o conselho de continuar sendo homem em meio à filosofia, ele recomenda que o exercício da razão não nos afaste inteiramente das ocupações e dos vínculos humanos.
No fim do livro (seção XII, parte III), Hume propõe uma regra para a biblioteca. Pegue qualquer volume de teologia ou de metafísica escolástica e pergunte: contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou número? Contém algum raciocínio experimental sobre fatos e existência? Se a resposta for não às duas, "lance-o às chamas, pois não pode conter nada além de sofisma e ilusão".
A resposta dos racionalistas
O debate entre empiristas e racionalistas trata do papel da experiência e da razão na origem e na justificação do conhecimento. Descartes e Leibniz defendem ideias ou princípios que não se explicam apenas pela sensação. Para Leibniz, o inatismo envolve disposições da mente, e não um repertório de conhecimentos que uma criança já saberia enunciar. A oposição ajuda a apresentar o problema, desde que não apague as diferenças entre os autores.
Leibniz respondeu a Locke ponto por ponto nos Novos ensaios sobre o entendimento humano Amazon , escritos em forma de diálogo. Ao velho axioma dos escolásticos, "nada está no intelecto que antes não tenha estado nos sentidos", ele acrescentou uma exceção certeira (livro II, cap. 1): "a não ser o próprio intelecto". A alma, diz Leibniz, contém noções que os sentidos não poderiam dar, como ser, substância, unidade, identidade, causa e raciocínio.
Kant tentou reconciliar as duas posições. A Crítica da razão pura Amazon abre com uma frase que um empirista assinaria pela metade (introdução, B1): não há dúvida de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência, "mas nem por isso todo ele se origina da experiência". Parte do que sabemos seria contribuição da própria faculdade de conhecer.
O que a tradição tomista diz
Aquele axioma que Leibniz corrigiu era medieval, e é bom saber em que sentido. Santo Tomás de Aquino aceita que o conhecimento intelectual começa nos sentidos. Mas, na Suma teológica Amazon (I, q. 84, a. 6), ele explica que as imagens sensíveis precisam ser tornadas inteligíveis pela luz do intelecto agente, e conclui que o conhecimento sensível não é a causa total e perfeita do conhecimento intelectual, sendo antes "de certo modo a sua causa material". Os sentidos fornecem a matéria; o intelecto vê nela o que os sentidos sozinhos não veem, a natureza das coisas. Na leitura tomista, os sentidos dão a matéria sem que se chegue ao ceticismo de Hume, o que está na base da metafísica de Santo Tomás.
Edmund Husserl atacou outro desdobramento do empirismo no início do século XX. Nos Prolegômenos à lógica pura Amazon , primeiro volume das Investigações lógicas Amazon (1900), ele recusa a tentativa de fundar as leis da lógica na psicologia, como generalizações empíricas de como os homens de fato pensam; para ele, a lógica trata de verdades ideais, que não dependem do ato de quem as pensa. O argumento é o de Husserl contra o psicologismo.
Empirismo radical, colaborativo e o equívoco do cientificismo
Duas expressões aparecem com frequência e pouco têm a ver com Locke. Empirismo radical Amazon é o nome que o americano William James deu à sua filosofia. No ensaio "Um mundo de pura experiência" (1904), ele escreve que, para ser radical, um empirismo não deve admitir nada que não seja diretamente experimentado nem excluir nada que o seja, incluindo as relações entre as experiências, que para ele também são vividas.
Empirismo colaborativo Amazon é um termo da terapia cognitiva desenvolvida por Aaron Beck. Terapeuta e paciente trabalham em colaboração para examinar crenças, formular hipóteses e confrontá-las com a experiência. É um modo de investigação clínica, não uma aplicação direta de todas as teses de Locke ou de Hume.
Por fim, vale separar empirismo de cientificismo, a pretensão de que só a ciência experimental responde às perguntas que importam. O empirista clássico fazia uma tese sobre a origem das ideias; o cientificismo faz uma tese sobre o alcance do método científico, e merece exame próprio, que você encontra em o que é cientificismo.
Para testar em casa
Escolha três coisas que você tem certeza de saber: uma de matemática, uma de moral, uma sobre o mundo físico. Para cada uma, tente dizer de que experiência ela veio. Onde a resposta for fácil, Locke ajuda. Onde travar, você chegou ao ponto em que Leibniz, Kant e Santo Tomás entram na conversa. Para ler os próprios autores, Hume é a melhor porta: escreve com clareza e humor, e a Investigação Amazon é curta.
Leitura recomendada
- Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral Amazon ↗, de David Hume (Unesp): tradução de José Oscar de Almeida Marques, que reúne as duas Investigações com cuidado filológico. É a melhor entrada no empirismo pela fonte.
- Ensaio sobre o entendimento humano Amazon ↗, de John Locke, vol. 1 (Martins Fontes): para quem quer o texto fundador inteiro. É longo e repetitivo em partes; comece pelo livro II.
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