Uma falácia é um defeito de raciocínio ou de argumentação que compromete a sustentação de uma conclusão. O argumento pode parecer convincente, mas sua força não corresponde às razões apresentadas. Reconhecer falácias exige examinar o vínculo entre premissas e conclusão, além das condições em que a conversa acontece.

Encontrar um erro não demonstra automaticamente que a conclusão seja falsa. Uma pessoa pode defender uma conclusão verdadeira por uma razão inadequada. Também é possível formular um argumento válido a partir de uma premissa falsa. Separar essas questões evita usar o nome de uma falácia como uma maneira de encerrar a discussão sem examinar o assunto.

Falácias formais e informais

Nas falácias formais, o problema está na estrutura da inferência: a conclusão não decorre das premissas do modo pretendido. Nas informais, a avaliação pode depender da relevância, da ambiguidade, das informações omitidas ou das circunstâncias do diálogo. A classificação ajuda no estudo, mas os limites de certos tipos são discutidos.

Os exemplos abaixo foram criados para este artigo. Em cada caso, procure identificar a afirmação defendida e a razão oferecida em seu apoio. Pergunte depois se essa razão estabelece o que promete. Uma frase isolada nem sempre permite classificar toda uma argumentação; o contexto pode revelar uma justificativa que ainda não foi apresentada.

1. Ad hominem: trocar o argumento pela pessoa

Uma leitora diz que o orçamento de um clube de livros está errado porque uma despesa foi contada duas vezes. A resposta é: “Você sempre foi desorganizada, então sua crítica não vale.” O comentário sobre a pessoa não verifica se a soma contém uma duplicação.

A crítica deve retornar à conta. Informações sobre honestidade ou competência podem ser relevantes quando dependemos de um testemunho, mas não dispensam o exame de uma demonstração disponível. O defeito está em usar a desqualificação pessoal no lugar da resposta à razão apresentada.

2. Espantalho: responder a uma versão deformada

Um participante propõe reduzir a duração de algumas reuniões. Outro responde: “Você quer acabar com o grupo e impedir todo mundo de estudar.” A proposta de mudar uma duração foi transformada numa intenção muito mais ampla, que o primeiro não afirmou.

Uma resposta adequada deve formular a posição alheia de modo que seu autor possa reconhecê-la. Só então vale apresentar a objeção. Criticar uma consequência realmente implicada pela proposta é diferente de inventar uma posição mais fraca ou extrema para atacá-la.

3. Falso dilema: esconder alternativas

“Ou compramos todos os livros novos, ou nossa biblioteca não terá qualidade.” A frase omite possibilidades como empréstimos, edições usadas e aquisição gradual. A conclusão tenta ganhar força pela exclusão de alternativas que não foram examinadas.

Nem toda escolha entre duas opções é um falso dilema. Há situações efetivamente limitadas. Para identificar o problema, é preciso mostrar uma alternativa pertinente ou uma combinação que tenha sido ignorada. A simples existência de opções imagináveis não garante que estejam disponíveis no caso concreto.

4. Generalização apressada

“Li dois livros traduzidos por essa editora e não gostei; todas as traduções dela são ruins.” A conclusão ultrapassa o alcance da experiência apresentada. Para sustentar um julgamento sobre um catálogo inteiro, seria necessário um conjunto mais relevante de informações e critérios de avaliação.

O problema não se resolve apenas aumentando um número. Uma amostra grande pode continuar enviesada. Convém perguntar como os casos foram selecionados, a que conjunto pertencem e se a conclusão diz respeito à qualidade da tradução, ao estilo da obra ou ao gosto de quem a leu.

5. Falsa causa

“Depois que trocamos a capa do boletim, chegaram novos assinantes; a capa causou todo o crescimento.” A sequência temporal, sozinha, não estabelece a explicação. Talvez uma divulgação, uma mudança de distribuição ou outro fator tenha participado do resultado.

Uma hipótese causal pode ser razoável sem estar demonstrada. O cuidado consiste em distinguir a proposta de explicação da conclusão definitiva. Investigar comparações, mecanismos e causas alternativas é mais útil do que supor que tudo o que veio antes produziu aquilo que veio depois.

6. Petição de princípio

“Este método é o melhor porque nenhum outro é superior a ele.” A segunda frase apenas reapresenta a conclusão como se fornecesse uma razão independente. O argumento não explica segundo quais critérios o método foi comparado aos demais.

Uma formulação circular pode ficar escondida em palavras diferentes. Para encontrá-la, tente escrever cada premissa sem usar sinônimos da conclusão. Se a justificativa depende justamente daquilo que se pretende provar, o leitor continua sem um motivo independente para aceitar a afirmação.

7. Apelo inadequado à autoridade

“Esse ator recomenda a melhor tradução de um tratado antigo, então a questão está resolvida.” A fama do ator não estabelece competência específica para comparar manuscritos e escolhas linguísticas. Ele pode ter uma preferência legítima, mas isso não equivale a uma avaliação especializada.

Consultar especialistas é frequentemente razoável. A avaliação deve considerar sua competência no assunto, a base da afirmação e a existência de divergências relevantes. O recurso à autoridade se torna defeituoso quando o prestígio é usado para substituir critérios pertinentes ou para impedir qualquer revisão.

8. Afirmação do consequente

Considere: “Se a biblioteca está fechada, a sala fica vazia. A sala está vazia. Logo, a biblioteca está fechada.” A conclusão não é garantida: a sala também poderia estar vazia porque ainda ninguém chegou, embora a biblioteca esteja aberta.

A estrutura passa indevidamente de “se A, então B” e “B” para “A”. Basta uma situação em que B ocorra sem A para mostrar que essa inferência não estabelece necessidade. Isso não prova que a biblioteca esteja aberta; prova que o argumento apresentado não demonstra o fechamento.

Como responder sem transformar a conversa em disputa de rótulos

Reformule a razão recebida, apresente o ponto exato em que ela falha e indique o que seria necessário para fortalecê-la. Em vez de anunciar apenas “falso dilema”, mostre uma terceira opção disponível. Em vez de dizer apenas “falsa causa”, descreva uma explicação alternativa que precise ser investigada.

Também evite a falácia de concluir que toda posição do interlocutor está errada porque uma de suas justificativas falhou. O exercício vale para suas próprias razões. O guia de livros de lógica para iniciantes oferece uma sequência de estudo; o artigo sobre dialética amplia a atenção às perguntas e objeções. Para examinar justificações de conduta, veja ética e moral.