Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854) foi um filósofo do idealismo alemão. Procurou compreender como a consciência e a liberdade podem existir num mundo natural. Seus escritos mudaram ao longo de décadas. Ao estudo da natureza e da arte se somaram perguntas sobre o mal, a existência e a religião. Ele reformulou seus sistemas, e o sentido de uma afirmação depende do momento de sua obra em que aparece.

A formação e a carreira universitária

Nascido em Leonberg, Schelling estudou no seminário protestante de Tübingen, onde foi próximo de Hegel e do poeta Friedrich Hölderlin. Tornou-se professor em Jena em 1798, num ambiente ligado ao primeiro romantismo alemão. Depois trabalhou em outras cidades, entre elas Würzburg e Munique. Em 1841, foi para Berlim. Morreu em Bad Ragaz, na Suíça, em 1854.

Seu pensamento se formou no debate aberto por Kant e Fichte. A relação entre a atividade do sujeito e o mundo conhecido precisava ser explicada; ao mesmo tempo, a natureza parecia exigir uma investigação própria. Schelling buscou uma origem comum para o que conhece e para o que é conhecido, tema de sua filosofia da identidade.

O problema do sujeito e do objeto

Sujeito é aquele que conhece; objeto é aquilo que ele conhece. Quando uma pessoa observa uma árvore, ela distingue a atividade de perceber da árvore percebida. Schelling pergunta como essas duas dimensões se relacionam. A própria pessoa que pensa tem um corpo e pertence ao mundo natural que procura conhecer.

Seu diálogo com Fichte parte da importância da atividade do sujeito para o conhecimento. A filosofia da natureza procura explicar também a atividade do mundo natural. A consciência precisa ser compreendida dentro dessa investigação, o que exige perguntar como o mundo pode produzir seres capazes de conhecê-lo.

As mudanças na filosofia de Schelling

Há continuidade na busca de uma relação entre natureza e espírito, mas as respostas mudam. A filosofia da identidade, o tratado sobre a liberdade e os cursos tardios têm problemas e vocabulários próprios. A importância atribuída à arte no sistema de 1800, por exemplo, pertence a uma formulação diferente daquela dos cursos tardios sobre a existência.

Momento da obraQuestão e textos de referência
Final dos anos 1790 e 1800A produtividade da natureza e a atividade da consciência. Primeiro esboço da filosofia da natureza (1799) e Sistema do idealismo transcendental (1800).
A partir de 1801A filosofia da identidade procura um fundamento comum ao sujeito e ao objeto, chamado Absoluto.
O tratado de 1809A liberdade humana precisa incluir a possibilidade real de escolher o mal. Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana.
Os cursos tardios, incluindo Berlim a partir de 1841A diferença entre compreender um conceito e explicar a existência. Filosofia positiva, mitologia e revelação.

Uma natureza que produz

Para Schelling, a natureza tem uma atividade produtiva. Os seres que encontramos são resultados de processos pelos quais forças se organizam e entram em tensão. A vida orgânica lhe oferece um problema decisivo: como compreender um organismo cujas partes dependem umas das outras e da unidade que formam?

Sua filosofia da natureza procura relacionar os fenômenos físicos à formação dos seres vivos e, por fim, à consciência. A mente humana pertence à natureza, e sua capacidade de conhecer precisa ser pensada dentro dessa relação. A investigação envolve tanto questões filosóficas quanto debates científicos de sua época.

Uma planta oferece um exemplo: suas raízes e folhas têm atividades diferentes, mas dependem do mesmo organismo. Compreender a folha exige considerar suas relações com o conjunto vivo. Schelling procura pensar uma produtividade pela qual as formas naturais se constituem, e os organismos oferecem um caso especialmente importante desse problema.

Esse programa é conhecido pelo termo alemão Naturphilosophie. Ele procura uma explicação filosófica da relação entre as forças naturais e a vida. As hipóteses de Schelling sobre a ciência de sua época precisam ser separadas dessa pergunta: a atualidade de um problema filosófico não torna atuais todas as explicações científicas usadas para formulá-lo.

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Publicado em 1799, o livro desenvolve esse programa. Schelling tenta compreender conjuntamente forças como a eletricidade e o magnetismo, os processos químicos e a vida. Muitas de suas hipóteses científicas pertencem ao estado das pesquisas daquele período. O interesse filosófico está no esforço de pensar a natureza como um conjunto de processos do qual o ser humano participa.

A consciência e a arte

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No livro de 1800, Schelling parte da atividade da consciência para investigar como o mundo se apresenta a ela. Esse caminho complementa o da filosofia da natureza, que parte dos processos naturais e procura compreender o surgimento da consciência.

A arte recebe um lugar especial nesse sistema. A criação artística reúne a atividade consciente do autor e uma produtividade que excede o controle deliberado. Para Schelling, a obra permite apresentar a unidade dessas atividades. O problema estético, assim, faz parte da investigação sobre a relação entre sujeito e objeto.

Como exemplo da relação entre intenção e produtividade, pense na escrita de um poema. O autor escolhe palavras e trabalha sua construção, mas o resultado pode reunir sentidos que ele não planejou individualmente. Em seu sistema de 1800, Schelling atribui à obra de arte a capacidade de apresentar essa unidade numa forma perceptível.

A filosofia da identidade e o Absoluto

A partir de 1801, Schelling desenvolve a filosofia da identidade. O Absoluto designa o fundamento comum ao sujeito e ao objeto. O pensamento e a natureza são compreendidos como manifestações dessa unidade, o que exige explicar também as diferenças entre aquilo que conhece e aquilo que é conhecido.

Identidade, nesse contexto, trata do fundamento, e não afirma que uma pessoa e uma árvore sejam objetos iguais. A distinção que aparece no conhecimento deve ser pensada a partir de uma unidade anterior a ela. É essa passagem entre unidade e diferença que torna o sistema difícil e que motivará novas formulações de Schelling.

A liberdade e a possibilidade do mal

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O tratado de 1809 coloca a possibilidade do bem e do mal no centro da liberdade. Schelling procura explicar como uma pessoa pode agir mal num mundo que tem seu fundamento em Deus. Sua discussão retoma o problema do mal radical em Kant e dialoga com tradições religiosas e filosóficas anteriores.

Uma explicação que reduzisse todas as ações a efeitos necessários de uma causa anterior tornaria difícil atribuir responsabilidade ao indivíduo. Schelling enfrenta essa dificuldade ao distinguir o fundamento da existência e a existência manifesta. O fundamento torna a vida possível, mas contém uma dimensão obscura que o pensamento não domina por completo.

Essa distinção envolve também a vontade humana. O indivíduo tem uma vontade própria que pode se ordenar ao todo ou procurar submeter o todo a si. O mal ganha realidade nessa inversão. A discussão procura dar conta de uma escolha efetiva, pela qual alguém responde pelo que faz.

Como exemplo, imagine alguém que exige que todas as pessoas ao redor sirvam a seus interesses. A vontade própria passa a pretender a posição de princípio que organiza o conjunto. No tratado, essa inversão é pensada também na relação entre a pessoa, a natureza e Deus.

O fundamento, nesse argumento, é aquilo que permite a existência sem coincidir inteiramente com sua manifestação. A vontade individual também tem uma função: sem individualidade, não haveria pessoa capaz de agir. A possibilidade do mal aparece quando essa vontade toma o lugar que deveria caber à ordem mais ampla. Por isso, o tratado exige distinguir a condição que torna a liberdade possível do uso que alguém faz dela.

A filosofia positiva

Nos escritos e cursos tardios, Schelling distingue a filosofia negativa da positiva. A negativa investiga racionalmente o que uma coisa é e as condições de sua possibilidade. A positiva parte da existência: o fato de algo existir exige uma investigação que o conceito, por si, não encerra.

Pense no projeto de uma casa, como comparação explicativa. Podemos descrever sua estrutura e verificar se ela é possível; esse exame não demonstra que a casa foi construída. Schelling formula a diferença em termos filosóficos: explicar o que uma coisa pode ser e investigar o fato de ela existir são tarefas distintas. No projeto tardio, essa pergunta alcança a existência do mundo e a história religiosa.

A expressão filosofia positiva tem esse sentido próprio em Schelling; ela não designa o positivismo de Auguste Comte. A história, a mitologia e a revelação entram em sua pesquisa sobre a existência e a liberdade. Os cursos de Berlim desenvolveram esse projeto e expuseram sua crítica à pretensão de deduzir toda a realidade de um sistema lógico.

A mitologia e a revelação

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Nos cursos sobre mitologia, Schelling investiga a formação da consciência religiosa dos povos. Os deuses e suas relações expressam, em sua interpretação, um processo vivido por essa consciência. A pesquisa aproxima sistemas mitológicos da Grécia, do Egito e do Oriente Próximo e examina suas relações com a linguagem e com o pensamento filosófico.

Os mitos interessam a Schelling como formas pelas quais a humanidade experimentou o divino. Sua investigação considera essa experiência uma etapa necessária para compreender a história das religiões e a revelação.

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A revelação, especialmente a cristã, ocupa os cursos tardios nos quais Schelling desenvolve a filosofia positiva. A possibilidade de um acontecimento religioso e sua existência histórica exigem perguntas diferentes. O filósofo procura compreender a relação entre Deus e o mundo a partir da liberdade e da história.

Esse conjunto de cursos tem uma transmissão editorial complexa. As aulas de Berlim de 1841 e 1842 chegaram por transcrições, e Schelling continuou a modificar seu pensamento. As edições precisam ser situadas dentro desse desenvolvimento, que se prolongou até o fim de sua vida.

Schelling, Hegel e a leitura do idealismo alemão

A proximidade de Schelling com Hegel em Tübingen e no início da carreira pertence a uma história que depois incluiu divergências. Nos cursos tardios, Schelling critica a pretensão de explicar a existência a partir de uma ciência puramente racional. A crítica à filosofia de Hegel participa desse debate sobre os limites da dedução e a relação entre razão e realidade.

O contexto de Jena aproxima Schelling do romantismo alemão e de Goethe, num ambiente em que o estudo da natureza e a criação artística eram assuntos de debate. A relação entre as duas atividades recebe uma formulação própria em seu pensamento. Sua investigação da arte participa da estética, que trata de problemas como a experiência do belo e a natureza da obra de arte.

Por onde começar a ler Schelling

O assunto de interesse deve orientar a escolha. O Sistema do idealismo transcendental é uma entrada para a relação entre consciência e arte, mas pressupõe familiaridade com os problemas de Kant e Fichte. Convém acompanhar o que Schelling entende por atividade do sujeito e por produção inconsciente, sem tomar essas expressões no sentido cotidiano.

Para o problema moral e religioso, as Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana concentram a discussão num tratado. Sua extensão relativamente contida não elimina a dificuldade: fundamento, existência e vontade são termos que precisam ser lidos dentro do argumento. Uma edição com introdução e notas ajuda a identificar as interlocuções filosóficas e religiosas.

O Primeiro esboço interessa ao estudo da filosofia da natureza. Os cursos de mitologia e revelação pertencem ao projeto tardio e ganham clareza depois de compreendida a diferença entre filosofia negativa e positiva. É preciso conferir se a edição reúne textos do próprio filósofo, transcrições de aulas ou exposições de comentadores, além de observar as datas indicadas no volume.