A hierarquia de necessidades de Abraham Maslow é uma teoria sobre a prioridade relativa de diferentes motivações humanas. Em seu artigo de 1943, ele propõe que necessidades básicas, quando muito insatisfeitas, tendem a dominar a atenção, enquanto outras ganham espaço conforme as primeiras são atendidas. A conhecida pirâmide é uma representação posterior, que pode esconder ressalvas do texto.

Compreender a proposta exige separar três coisas: as categorias de necessidades, a ideia de uma ordem entre elas e o uso prático dessa ordem. Reconhecer que alimentação, segurança e pertencimento importam não demonstra automaticamente que exista uma sequência rígida para toda pessoa e situação.

As cinco categorias mais conhecidas

Em A Theory of Human Motivation, Maslow apresenta cinco conjuntos de necessidades. As categorias procuram indicar fins básicos; sua manifestação concreta pode variar.

  • Fisiológicas: ligadas à manutenção do organismo, como fome e sede.
  • Segurança: relacionadas à proteção e à estabilidade.
  • Amor e pertencimento: vínculos, afeto e participação em relações.
  • Estima: respeito, reconhecimento e avaliação de si.
  • Autorrealização: desenvolvimento das próprias possibilidades, em formas diferentes para cada pessoa.

O texto não exige satisfação completa de uma necessidade antes do aparecimento de outra. Admite satisfação parcial, motivações simultâneas e exceções à ordem. Os percentuais que o autor usa para ilustrar a satisfação são números arbitrários de um exemplo, e não resultados de uma pesquisa populacional.

A pirâmide não foi desenhada por Maslow

Todd Bridgman, Stephen Cummings e John Ballard investigaram a história dessa imagem em um estudo publicado em 2019. Sua pesquisa distingue a teoria de Maslow e o símbolo que se consolidou no ensino de administração. Não encontraram apoio para atribuir a ele a criação da pirâmide.

Na entrevista sobre o trabalho, os pesquisadores explicam que examinaram a circulação das representações em materiais de gestão e documentos de arquivo. A pesquisa histórica examina a autoria da pirâmide e o modo como essa forma visual passou a orientar a compreensão da teoria.

Uma figura com patamares separados convida a imaginar passagem completa de um nível ao seguinte. Se o leitor esquece as ressalvas, pode concluir que uma pessoa com dificuldade material não teria necessidades de afeto, reconhecimento ou criação. Essa conclusão não decorre da existência de prioridades relativas.

Uma teoria precisa especificar suas previsões

Para avaliar a hierarquia, é necessário perguntar o que conta como satisfação de cada necessidade, como se mede sua prioridade e em que condições a ordem deveria aparecer. Se toda exceção é explicada depois sem critérios prévios, fica difícil saber qual resultado poderia colocar a proposta em dificuldade.

Também é necessário distinguir preferência declarada, comportamento observado e bem-estar. Uma pessoa pode valorizar muito uma atividade e não conseguir realizá-la por falta de recursos. Pode ainda manter vínculos importantes em meio à privação. A medida escolhida precisa corresponder à afirmação que se pretende testar.

O estudo de Tay e Diener

Louis Tay e Ed Diener, em 2011, examinaram relações entre satisfação de necessidades e bem-estar subjetivo em dados de 123 países. Encontraram associações em diferentes regiões e observaram que a relação de necessidades específicas com o bem-estar era, em grande parte, independente da satisfação de outras necessidades.

Isso ajuda a questionar a versão em que o benefício de um vínculo só surgiria depois da satisfação completa de necessidades mais básicas. O trabalho, porém, não é uma confirmação integral de toda a teoria de Maslow. Suas medidas não correspondem perfeitamente a cada categoria original, e associação não estabelece sozinha a direção causal.

Uma distinção relevante é entre condições individuais e sociais. O estudo também considera o contexto de satisfação de necessidades na sociedade. A motivação e o bem-estar não devem ser reduzidos a uma posição pessoal em uma escada, como se recursos, relações e instituições não participassem da situação.

Como usar as categorias com prudência

Imagine uma estudante com dificuldade para acompanhar um curso. Perguntar apenas se lhe falta ambição seria limitado. Você pode investigar alimentação, descanso, condições de segurança, disponibilidade de material e vínculos de apoio. As categorias ajudam a ampliar as perguntas; não revelam a causa sem ouvir a estudante e examinar as circunstâncias.

O exemplo é hipotético. Sua finalidade é mostrar um uso como roteiro de observação, sem classificar alguém como pertencente a um nível inferior. As prioridades concretas devem ser discutidas com a pessoa. Oferecer um recurso que você considera básico não resolve automaticamente tudo o que ela necessita.

Uma aplicação responsável registra o problema, a ajuda proposta e o que mudou depois. Se nada mudou, a explicação precisa ser revista. As categorias descrevem necessidades e não estabelecem uma hierarquia de valor entre pessoas.