Em 2010 chegou às livrarias brasileiras um volume de 960 páginas chamado 1001 livros para ler antes de morrer, organizado por Peter Boxall, com resenhas curtas de romances e outras obras de ficção. O título pegou e virou um gênero: listas de cem, de quinhentos, de mil livros, todas com a mesma ameaça no fim da frase.

Uma lista de livros clássicos para ler antes de morrer só faz sentido se levar a última palavra a sério. A vida é curta, então a lista precisa ser curta e ter ordem: dez obras que tratam de frente da morte e do que fazer com a vida antes dela, organizadas para que cada uma prepare a seguinte.

O que pesou na escolha

Mortimer Adler e Charles Van Doren fecham a edição de 1972 de Como Ler Livros com uma lista recomendada de 137 entradas, de Homero a Soljenítsin, em ordem cronológica de nascimento dos autores. Antes da lista, avisam que o objetivo é ler bem, não ler muito, que o leitor não deve se decepcionar por ler só um punhado desses livros num ano e que a lista é um convite, não um desafio a ser cumprido. Também lembram que a ordem cronológica não obriga a ler na mesma ordem.

Esta seleção segue o conselho. Dos dez, sete estão na lista de Adler e Van Doren. Tolstói também aparece nela, mas com outros títulos, e a novela escolhida aqui é mais curta. Os outros dois são a Imitação de Cristo e Grande Sertão: Veredas, que entram pelo assunto e pela língua.

Ficaram de fora obras que você talvez esperasse, como a Ilíada, Hamlet ou a Ética a Nicômaco. Elas estão nos 12 clássicos do Ocidente para ler em dois anos, um percurso com outro critério, e repetir aquela sequência não ajudaria você em nada.

Odisseia, de Homero

Comece pela volta para casa. Odisseu passa anos tentando regressar a Ítaca depois da guerra de Troia, e o canto V traz a cena que justifica o livro nesta lista: a ninfa Calipso oferece a ele a imortalidade, e ele recusa, porque quer voltar para a mulher e para a sua terra. Um homem mortal escolhe a vida com prazo e o caminho de casa.

A Odisseia também é a porta de entrada da lista. A história anda, os episódios têm começo e fim, e quem lê aventura acaba lendo, sem perceber, sobre fidelidade, hospitalidade e paciência. O resumo da Odisseia ajuda a não se perder entre os cantos.

Apologia de Sócrates, de Platão

Em 399 a.C., Sócrates se defende diante do júri de Atenas e se recusa a comprar a absolvição com o silêncio. É ali que aparece a frase que tantos repetem sem ter lido o contexto: a vida sem exame não vale a pena ser vivida (38a). Ele a diz justamente ao responder a quem pergunta por que não aceita o exílio e fica calado.

A Apologia tem poucas páginas, e vale lê-las devagar. Ler a versão de Platão ao lado da de Xenofonte mostra o mesmo julgamento contado por dois discípulos que estiveram perto de Sócrates.

A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

Tolstói publicou a novela em 1886. Ela abre com a notícia da morte de um juiz e com os colegas calculando, no mesmo instante, quem fica com o cargo dele. Depois volta atrás e conta uma carreira correta, um casamento conveniente, um apartamento decorado com cuidado, até a queda boba ao mostrar como se pendura uma cortina. A dor que começa ali obriga Ivan Ilitch a perguntar se a vida que todos aprovavam não foi, do começo ao fim, um engano.

Ela vem cedo na ordem porque é curta e não pede preparo, e porque faz a pergunta desta lista sem rodeio. Os capítulos finais, em que Ivan Ilitch encara o que fez da vida, pedem calma, mesmo sendo poucas páginas. Depois dele, as Confissões soam menos distantes.

Confissões, de Santo Agostinho

Agostinho escreve a própria vida em forma de oração, e a primeira página já dá o tom: fomos feitos para Deus, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa nele. O resto do livro mostra essa inquietação por dentro: a ambição de professor de retórica, os amores, a busca em filosofias que não respondiam, a conversão em Milão, a morte da mãe em Óstia.

Os livros I a IX contam a história; os últimos tratam da memória, do tempo e da criação, e podem ficar para uma segunda leitura. Quem chega aqui depois de Ivan Ilitch reconhece a pergunta: Agostinho também tinha uma carreira bem-sucedida e descobriu que ela não respondia ao que ele procurava.

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

Parece estranho pôr um livro tão engraçado numa lista sobre a morte, até chegar ao último capítulo. Depois de centenas de páginas de aventuras, o fidalgo adoece, recupera o juízo, renega os livros de cavalaria, diz que voltou a ser Alonso Quijano, o Bom, faz testamento e morre. A loucura que divertia o leitor termina num leito, com amigos chorando em volta.

Leia o romance inteiro, as duas partes; é o primeiro romance longo da lista. A segunda parte, publicada depois do sucesso da primeira, é a que leva a esse fim.

Pensamentos, de Blaise Pascal

Pascal deixou fragmentos de uma defesa do cristianismo que não chegou a terminar. Um deles diz que o homem é só um caniço, a coisa mais frágil da natureza, mas um caniço que pensa: o universo pode esmagá-lo, e mesmo assim ele seria mais nobre do que aquilo que o mata, porque sabe que morre (fragmento 347, na numeração de Brunschvicg). Outros mostram como enchemos o dia de distrações para não pensar nisso.

Leia aos poucos, alguns fragmentos por vez, e volte aos que incomodam.

Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis

Se Pascal descreve a fuga, a Imitação ensina a parar de fugir. O capítulo 23 do primeiro livro trata da meditação sobre a morte e aconselha a ordenar cada ação e cada pensamento como se fosse morrer hoje, porque quem tem a consciência limpa não teme muito a morte. Lido assim, o "antes de morrer" do título é uma regra de vida.

Fica bem na cabeceira, para ler um capítulo por dia. Os capítulos são curtos, e a linguagem é simples; a dificuldade está em fazer o que ele pede. Dentro da lista, ele muda o modo de ler os outros: depois dele, as mortes de Ivan Ilitch e de Dom Quixote se leem como exames de consciência.

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

O último romance de Dostoiévski gira em torno do assassinato de Fiódor Karamázov e dos três filhos dele: Dmitri, apaixonado; Ivan, intelectual e atormentado; Aliócha, noviço num mosteiro. Cada um carrega, de algum modo, uma parte da culpa. No livro VI, no dia em que morre, o velho starets Zóssima diz a Aliócha uma frase do Evangelho de João (12,24) e pede que ele a guarde: se o grão de trigo não cair na terra e morrer, fica só; se morrer, dá muito fruto. A mesma frase volta logo adiante, nas memórias do starets. O livro inteiro pode ser lido como o desenvolvimento dela.

O romance é longo, cheio de nomes e de digressões, e vale chegar a ele depois de Agostinho e Pascal, porque as discussões sobre Deus e a liberdade vão reaparecer com outra roupa. Antes de começar, o resumo de Os Irmãos Karamázov ajuda com a família e os apelidos.

Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Riobaldo, um velho ex-jagunço, conta a um visitante a própria vida e repete, de várias formas, que viver é muito perigoso. A pergunta que o persegue é se fez ou não um pacto com o diabo, e o que isso diz da sua alma. É o romance brasileiro que entra nesta lista porque trata da salvação e da culpa com a mesma seriedade de Dostoiévski, numa língua que só existe ali.

A dificuldade é real: a prosa inventa palavras e não tem capítulos. Leia em voz alta nas primeiras páginas, até o ouvido se acostumar. Com alguma insistência, a voz de Riobaldo vira o motivo de continuar.

A Divina Comédia, de Dante

O poema começa no meio do caminho da nossa vida, numa selva escura, e termina diante de Deus. No percurso, Dante atravessa o Inferno e o Purgatório e sobe pelo Paraíso, encontrando gente que já morreu e que mostra, cada uma, no que deu a vida que levou. Muito do que apareceu antes nesta lista está ali: a viagem de Homero, a confissão de Agostinho, a pergunta de Ivan Ilitch.

Por isso fica por último. Quem chega a ela depois dos outros nove percebe que o poema fala de conversão do começo ao fim, e que cada castigo e cada recompensa estão ali para mostrar o que uma vida escolheu.

Em que ordem ler esses clássicos

A sequência acima tem três momentos. Os três primeiros livros (Odisseia, Apologia e Ivan Ilitch) fazem a pergunta e podem ser lidos sem preparo. Os quatro seguintes (Confissões, Dom Quixote, Pensamentos e Imitação) mostram respostas, em forma de vida, de romance, de fragmento e de conselho. Os três últimos exigem mais e pedem um leitor que já passou pelos outros.

O hábito que atravessa esta lista tem nome antigo na tradição cristã, o mesmo do capítulo da Imitação: meditar sobre a morte para viver melhor. Nenhum desses livros é mórbido por isso. Homero, Cervantes e Tolstói contam boas histórias, e é por levarem a vida a sério que chegam ao fim dela.

Não há prazo. Um livro grande por vez, com um curto ao lado se o grande travar, rende mais do que dez começos abandonados. Se uma tradução emperrar, troque de edição antes de trocar de livro; o guia sobre como escolher a tradução de um clássico ajuda nessa decisão. E se faltar método para os livros difíceis, Como Ler Livros acompanha a lista inteira: tem capítulos sobre como ler histórias, peças e poemas, sobre história e filosofia, e uma nota sobre teologia.

Leitura recomendada

  • Como Ler Livros Amazon ↗, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren (É Realizações, 2010), com prefácio de José Monir Nasser. É o manual de método para os livros desta lista.
  • Odisseia, de Homero (Sétimo Selo), na versão em versos de Carlos Alberto Nunes. Conserva o ritmo do poema e traz um dicionário de personagens e lugares.
  • Apologia de Sócrates, de Platão e Xenofonte (Vide Editorial), traduzida do grego, com introdução e notas. Reúne as duas versões do julgamento num volume curto.
  • A Morte de Ivan Ilitch Amazon ↗, de Liev Tolstói (L&PM Pocket). Edição de bolso, fácil de levar e de terminar em poucos dias.
  • Confissões, de Santo Agostinho (Ecclesiae, 2025). Vale pelo volume único em formato grande, confortável para ler com lápis na mão.
  • Dom Quixote, dois volumes, de Miguel de Cervantes (Edições Livre). Vale por reunir as duas partes, inclusive a segunda, que leva ao capítulo final.
  • Pensamentos, de Blaise Pascal (Vide Editorial). Vale pelos fragmentos numerados e pelas notas de Léon Brunschvicg, com apresentação histórica e biográfica.
  • Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis (Ecclesiae). Vale pelo formato leve, de 228 páginas, bom para ter à cabeceira.
  • Os Irmãos Karamázov Amazon ↗, de Fiódor Dostoiévski (Editora 34), traduzido direto do russo. Sai em dois volumes, com notas e posfácio do tradutor.
  • Grande Sertão: Veredas Amazon ↗, de João Guimarães Rosa (Companhia das Letras, 2019). A edição traz novo estabelecimento do texto, cronologia ilustrada e textos críticos sobre o romance, úteis para quem chega ao livro sem guia.
  • A Divina Comédia, edição de bolso Amazon ↗, de Dante Alighieri (Editora 34), na versão de Italo Eugenio Mauro, que conserva rima e métrica e recebeu o Prêmio Jabuti. Traz o poema inteiro num volume.

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