Há uma parte da esquerda que parece perder a simpatia pelo trabalhador assim que ele diz que quer abrir um negócio. A solidariedade dura enquanto ele reclama do salário ou pede proteção. Basta falar em ganhar dinheiro por conta própria para ouvir que virou “CEO de MEI”. Se também discorda politicamente, ganha outro apelido: “pobre de direita”.

O desprezo nessas expressões me incomoda. Quem recebe a piada pode ser alguém que trabalha o dia inteiro e, à noite, faz contas para comprar uma ferramenta. Talvez esteja tentando montar uma pequena loja ou conseguir o primeiro cliente. Ainda tem pouco, sabe quanto custa pagar as contas e gostaria de melhorar de vida. O que há de tão ridículo nisso?

A piada do “CEO de MEI” depende do tamanho do negócio. O sujeito usa um título que parece pomposo demais para o que possui, e isso basta para desqualificar sua tentativa. Só que conseguir alguns clientes pode ter exigido muito de quem começou sem capital e sem uma família capaz de bancar seus erros. Quem ri costuma deixar esse esforço fora da conversa.

Existem razões para discutir os riscos de trabalhar por conta própria. A renda pode ser insuficiente, a jornada pode consumir o dia e o negócio pode fracassar. Também há quem explore a vontade de melhorar de vida vendendo cursos e promessas de enriquecimento fácil. Criticar esse comércio exige olhar para quem vende a promessa. Humilhar quem acreditou nela só piora a situação de alguém que talvez já tenha perdido dinheiro.

“Pobre de direita” traz uma cobrança diferente: a de que a pessoa pense e vote conforme sua condição econômica. Quem usa a expressão parece considerar que o pobre deve concordar com aqueles que se apresentam como seus representantes. Se ele discorda, atribuem a opinião à ignorância. A possibilidade de que tenha pensado no assunto e chegado a outra conclusão recebe pouca consideração. É difícil levar a sério uma defesa dos trabalhadores que lhes concede tão pouca capacidade de decidir.

Um trabalhador pode querer direitos e serviços públicos melhores, além de desejar uma empresa própria. Pode sonhar com uma casa maior e algum dinheiro guardado. Querer deixar de depender de um patrão não o impede de conhecer as dificuldades do trabalho. Esses desejos cabem na mesma vida, embora atrapalhem certas expectativas políticas sobre como um pobre deveria se comportar.

Quem pretende representar os trabalhadores precisa ouvir também os planos que lhe desagradam. A pessoa pode conhecer os riscos e resolver tentar mesmo assim; ninguém lhe deve exigir que permaneça pobre para confirmar uma teoria. O sujeito que abre um MEI talvez nunca fique rico. Pode fechar o negócio ou conseguir uma renda um pouco melhor, com mais controle sobre o próprio tempo. Para ele, essa melhora já pode valer o esforço.