Sete nomes que Olavo de Carvalho destacava quando falava de poesia brasileira — de Gonçalves Dias a Bruno Tolentino. Não é cânone de vestibular. É a lista que ele usava.

Gonçalves Dias

Nascido em 1823, filho de português e de mãe cafuza, é o poeta do indianismo: a tentativa romântica de fundar uma voz nacional na figura do indígena. A Canção do Exílio ficou na memória do país; Primeiros Cantos Amazon e Os Timbiras Amazon sustentam o resto. Morreu num naufrágio.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Trecho de Canção do Exílio

Cruz e Sousa

Catarinense, 1861, filho de escravos libertos. O “Cisne Negro” do Simbolismo: Broquéis e Missal. Imagem sensorial, musicalidade, o inefável — outra língua que a do realismo então na moda.

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Trecho de “Acrobata da dor” (Broquéis Amazon )

Manuel Bandeira

Recife, 1886. A tuberculose atravessa a biografia e o verso. Esteve na Semana de 1922. Libertinagem Amazon (1930) e Estrela da Manhã Amazon são os livros que mais circulam; “Vou-me Embora pra Pasárgada” é o poema que todo mundo cita. A Nova Aguilar reuniu a poesia completa num box — está à venda.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Trecho de “Vou-me Embora pra Pasárgada”

Carlos Drummond de Andrade

Itabira, 1902. Do modernismo saiu um estilo próprio: o cotidiano virado verso, sem recusar o século. A Rosa do Povo (1945) é o livro do conflito; Claro Enigma (1951), o da volta para dentro.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Trecho de “No Meio do Caminho”

Jorge de Lima

Alagoas, 1893. Médico e poeta. Do modernismo dos anos 20 passou a uma poesia em que o sagrado e o nordeste ocupam o mesmo verso. Poemas (1927) abre o caminho; A Túnica Inconsútil Amazon (1938) e Invenção de Orfeu (1952) são o fôlego longo — esta última, epopeia moderna.

Nobre apenas de memórias,
vai lembrado de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.

Trecho de Invenção de Orfeu Amazon

Murilo Mendes

Juiz de Fora, 1901. Do modernismo para um verso que mistura surrealismo e pergunta filosófica. Tempo e Eternidade Amazon (1935) escreveu com Jorge de Lima; A Poesia em Pânico (1937) é o experimento que mais se cita.

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

“Reflexão Número 1” (Mundo Enigma Amazon )

Bruno Tolentino

Rio, 1940. Formado entre o Brasil e a Europa, escreveu contra o que via como perda de forma e de medida. As Horas de Katharina (1993) e O Mundo Como Ideia (2002) são os volumes que mais circulam; a erudição e a polêmica cultural andam juntas na obra.

Descobre-se que a paixão,
a paixão e a primavera,
se são paralelas são
dois termos da mesma espera.

Espera encantada ou não,
ambas não passam de mera,
febril aproximação
da jaula aberta da fera,

tremor contínuo da mão
que agarra o gradil e enterra
as unhas na solidão
que força mas não descerra.

Trecho de A Balada do Cárcere