Em 1577, um frade de 35 anos foi levado à força para um convento de Toledo e trancado ali por outros frades da mesma ordem. Ficou meses preso, sob privações físicas e morais, e nesse tempo compôs, entre outros poemas, o Cântico espiritual. Numa noite de agosto de 1578, fugiu.
São João da Cruz foi um frade carmelita e sacerdote espanhol do século XVI, nascido em 1542 e morto em 1591, que reformou a Ordem do Carmo ao lado de Santa Teresa de Ávila e escreveu poemas e tratados sobre a união da alma com Deus, entre eles Noite escura e Cântico espiritual. A Igreja o canonizou em 1726 e o declarou Doutor da Igreja em 1926. É lembrado como o "doutor místico".
Infância pobre em Castela
Juan de Yepes nasceu em Fontiveros, perto de Ávila, em 1542. Seus pais eram Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. Bento XVI conta que o pai, de origem nobre de Toledo, tinha sido deserdado por se casar com Catalina, uma humilde tecelã de seda, e que a família vivia em extrema pobreza. Gonzalo morreu quando o filho ainda era pequeno. Ainda menino, João mudou-se com a mãe e o irmão Francisco para Medina del Campo, perto de Valladolid.
Em Medina, João frequentou o Colegio de los Doctrinos, fez pequenos trabalhos para as freiras de um convento, foi enfermeiro no Hospital da Conceição e, aos dezoito anos, entrou no colégio dos jesuítas recém-fundado na cidade, onde estudou ciências humanas, retórica e línguas clássicas durante três anos.
Carmelita, padre e reformador
No verão de 1563, Juan entrou no noviciado dos carmelitas em Medina e recebeu o nome de frei João de São Matias. No ano seguinte foi para a Universidade de Salamanca, onde estudou artes e filosofia por três anos. A Britannica observa que a precisão teológica e filosófica dos tratados dele deve muito ao estudo de Santo Tomás de Aquino.
Além de frade, João foi padre: segundo Bento XVI, recebeu a ordenação sacerdotal em 1567 e celebrou a primeira missa em Medina del Campo. Ali se deu o primeiro encontro com Teresa de Ávila, que expôs a ele o plano de levar ao ramo masculino da ordem a reforma que já fazia entre as monjas, com a volta à austeridade da regra primitiva. O jovem padre aderiu ao projeto, e os dois trabalharam juntos alguns meses para abrir a primeira casa dos frades descalços.
Em 28 de novembro de 1568, em Duruelo, lugar isolado da província de Ávila, começou a primeira comunidade dos carmelitas descalços. Ao assumir a vida reformada, frei João de São Matias passou a se chamar João da Cruz. Ele viveu no século XVI; seu nome religioso não o identifica com João Batista nem com o apóstolo João.
No fim de 1572, a pedido de Teresa, ele se tornou confessor e vigário do mosteiro da Encarnação, em Ávila, onde ela era priora. Bento XVI situa nesses anos de colaboração os primeiros escritos de João.
A prisão em Toledo
A reforma teresiana provocou atritos dentro da Ordem do Carmo, entre os descalços, ligados a Teresa, e os carmelitas da antiga observância. A Britannica liga a prisão diretamente a esse conflito e registra duas detenções, a primeira em 1576 e a segunda em 1577, em Toledo. Bento XVI descreve o episódio de 1577 como "rapto e aprisionamento no convento dos Carmelitas de Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta". Ele ficou preso durante meses, "submetido a privações e constrições físicas e morais".
Na prisão, segundo Bento XVI, ele compôs poemas, entre eles o Cântico espiritual. Na noite de 16 para 17 de agosto de 1578, conseguiu fugir e se refugiou no mosteiro das carmelitas descalças de Toledo.
Quem o prendeu, portanto, foram frades da própria ordem, num conflito interno sobre a reforma. A prisão também não o afastou do caminho escolhido: depois da fuga, ele continuou entre os descalços até o fim da vida.
Os anos na Andaluzia e a morte em Úbeda
Depois de se recuperar, João foi mandado para a Andaluzia, onde passou dez anos em vários conventos, sobretudo em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes e, entre 1585 e 1587, foi vigário provincial da região, segundo a Britannica. Nesses anos, diz Bento XVI, completou a redação dos tratados espirituais. Voltou depois a Castela como membro do governo geral dos descalços e foi superior do convento de Segóvia.
Em 1591, foi dispensado de todos os cargos e destinado à nova província carmelita do México. A Britannica lembra que os descalços estavam de novo divididos por desavenças e que ele se retirou para a solidão. Enquanto se preparava para a viagem, adoeceu gravemente num convento da região de Jaén e morreu em Úbeda na noite de 13 para 14 de dezembro de 1591, enquanto os frades rezavam o ofício da madrugada. Segundo Bento XVI, despediu-se deles dizendo: "Hoje vou cantar o Ofício no Céu". Os restos foram depois levados para Segóvia.
Foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726. Em 1926, Pio XI o proclamou Doutor da Igreja.
O que ele escreveu
O conjunto da obra cabe num volume: a edição das Obras completas da Vozes reúne tudo em 1.152 páginas. Bento XVI destaca quatro escritos maiores: Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de amor. O papa o considera "um dos mais importantes poetas líricos da literatura espanhola", e os tratados nasceram como explicações dos próprios poemas.
A expressão "noite escura" virou sinônimo de crise, mas no autor ela tem sentido técnico. Bento XVI resume: a Subida descreve a purificação que a pessoa empreende, colaborando com Deus, para se libertar de todo apego contrário à vontade dele, começando pelos sentidos e passando pela fé, pela esperança e pela caridade. A Noite escura descreve o lado "passivo" dessa purificação, a ação de Deus na alma, porque o esforço humano sozinho, diz o papa, consegue conter as más inclinações, mas não arrancá-las pela raiz.
João Paulo II, que fez a tese de doutorado sobre a fé segundo São João da Cruz, escreveu a carta apostólica Mestre na fé em 14 de dezembro de 1990, por ocasião das celebrações do quarto centenário da morte do santo, ocorrido em 1991. Nela recorda ensinamentos como o exame da vida pelo amor e o conselho de pôr amor onde ele falta. Também destaca a afirmação da Subida de que Deus já disse tudo em seu Filho. Para João Paulo II, a fé é o meio próprio para a comunhão com Deus.
Por onde começar a ler
Os poemas são curtos e vale começar por eles, de preferência em edição bilíngue, para acompanhar a sonoridade do espanhol junto da tradução. Os tratados pedem outro ritmo. A Subida e a Noite escura nasceram como comentários ao poema da noite, são densos e cheios de distinções e rendem mais quando lidos devagar, um capítulo de cada vez, com o poema por perto. Para um primeiro contato, nossa sugestão é o Cântico espiritual, que fala a linguagem do amor entre o noivo e a noiva, herdada do Cântico dos Cânticos, e oferece uma entrada pela poesia na teologia do autor.
Falar da própria vida interior em forma de oração é um gesto antigo na tradição cristã, e as Confissões de Santo Agostinho são um exemplo conhecido. Entre os autores que marcaram a cultura ocidental, João da Cruz tem uma particularidade que ajuda a lê-lo: nele, a teologia nasce como comentário de poemas.
Leitura recomendada
- São João da Cruz, Obras completas Amazon ↗ (Vozes).
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