Uma receita pode passar de uma avó para uma neta sem nunca ter sido escrita. Aprende-se observando, fazendo e corrigindo. Esse é um exemplo de tradição: algo recebido ganha continuidade ao ser transmitido, e pode desaparecer se ninguém aprender a praticá-lo.

Tradição é a entrega de uma geração à seguinte de algo que se recebeu e que se considera digno de ser conservado: uma crença, um saber, um costume, uma forma de fazer. A palavra vem do latim traditio, do verbo tradere, "entregar", "passar adiante". Antes de designar a coisa transmitida, ela designa o ato de transmitir.

Entregar o que se recebeu

O sentido original aparece com nitidez numa carta de São Paulo, escrita poucas décadas depois da morte de Cristo. Na Primeira Epístola aos Coríntios (15,3), ele resume o essencial da fé com o verbo da tradição: "Transmiti-vos, antes de tudo, o que eu mesmo recebi", na Vulgata tradidi enim vobis in primis quod et accepi. Ao narrar a Última Ceia (11,23), usa a mesma dupla: recebi do Senhor o que vos transmiti.

O mesmo trecho guarda um detalhe que vale notar. O Senhor Jesus, diz Paulo, tomou o pão "na noite em que foi entregue", in qua nocte tradebatur. O verbo é o mesmo. Tradere Amazon serve para passar adiante um tesouro e para entregar alguém à morte, e é dele que vem traditor, traidor. Toda tradição corre esse duplo risco: ser transmitida fielmente ou ser traída no meio do caminho.

Tradição cultural e tradição religiosa

No uso comum, chamamos de tradição cultural os costumes, festas, ofícios, histórias e modos de vida que uma comunidade recebe das anteriores: a festa junina, a culinária regional, a música de uma região, o jeito de celebrar um casamento. A maior parte disso nunca foi escrita; passa pelo convívio.

A tradição religiosa é a transmissão de uma fé, com suas crenças, ritos e práticas, ao longo das gerações. Toda religião antiga vive dela. No catolicismo, porém, a palavra tem um sentido técnico preciso, que costuma confundir quem chega de fora.

Tradição apostólica

Na doutrina católica, a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição estão unidas na transmissão da Revelação e constituem um único depósito da palavra de Deus. A constituição Dei Verbum Amazon , do Concílio Vaticano II, explica que os apóstolos transmitiram o que receberam de Cristo pela pregação, pelo exemplo e por instituições, e que a mensagem da salvação foi também consignada por escrito sob inspiração do Espírito Santo. Os bispos, sucessores dos apóstolos, recebem o encargo de conservar e ensinar essa herança.

Escritura e Tradição não são duas revelações independentes: derivam da mesma fonte divina e tendem ao mesmo fim. A Dei Verbum acrescenta que o magistério da Igreja está a serviço da palavra de Deus, e não acima dela. No entendimento católico, seu ofício é guardar, interpretar e transmitir o depósito recebido, não inventar uma revelação nova.

O mesmo documento acrescenta algo que surpreende quem pensa em tradição como museu: "esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo" (§8). Progride a compreensão das coisas e das palavras transmitidas, pela contemplação e pelo estudo dos fiéis, pela experiência das coisas espirituais e pela pregação. O Catecismo da Igreja Católica Amazon (§83) faz a distinção que falta em muita conversa: a Tradição que vem dos apóstolos é uma coisa; as "tradições" teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais, nascidas com o tempo nas Igrejas locais, são outra, e à luz da primeira podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas.

A democracia dos mortos

Uma das defesas mais citadas da tradição em língua inglesa é de G. K. Chesterton. No capítulo 4 de Ortodoxia Amazon (1908), ele propõe que a tradição é uma extensão do direito de voto: "Tradição significa dar voto à mais obscura de todas as classes, a dos nossos antepassados. É a democracia dos mortos". E completa: a tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que por acaso estão andando por aí. Se um democrata não aceita que um homem seja desqualificado pelo acidente do nascimento, a tradição não aceita que ele seja desqualificado pelo acidente da morte. A democracia manda não desprezar a opinião de um homem bom, mesmo que seja o nosso cavalariço; a tradição pede que não desprezemos a opinião de um homem bom, mesmo que seja o nosso pai.

O argumento tem um alcance prático que costuma passar despercebido. Quem decide tudo só com a opinião dos vivos dá aos contemporâneos um peso que nenhum deles tem sozinho. A mesma prudência está na cerca de Chesterton, a regra de não derrubar uma cerca antes de saber por que ela foi posta ali.

Na poesia, T. S. Eliot chegou a uma conclusão parecida por outro caminho. No ensaio "Tradição e talento individual" (1919), ele recusa a tradição entendida como imitação tímida da geração anterior e diz que a verdadeira "não pode ser herdada, e, se você a quer, deve obtê-la com grande trabalho". Para Eliot, ela começa pelo senso histórico, que envolve a percepção "não só do caráter passado do passado, mas da sua presença". O poeta que tem esse senso escreve com a sua geração nos ossos e, ao mesmo tempo, com toda a literatura da Europa, desde Homero, como se existisse simultaneamente.

Tradição e tradicionalismo

A tradição tem críticos de peso, e é justo ouvi-los. Kant, sem usar a palavra, deu um dos argumentos que a filosofia moderna mais repetiu contra a dependência da autoridade. Em "Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?" (1784), definiu o esclarecimento como a saída do homem da menoridade de que ele mesmo é culpado, isto é, da incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. O lema é sapere aude, "ousa saber". E Kant aponta o conforto da dependência: é cômodo ter um livro que pensa por mim, um pastor que tem consciência por mim, um médico que decide a dieta por mim.

A tradição cristã tem uma resposta mais fina do que se imagina. Santo Tomás de Aquino, que construiu a Suma teológica Amazon sobre citações de autoridades, escreve ali mesmo (I, q. 1, a. 8, ad 2) que o argumento de autoridade fundado na razão humana "é o mais fraco"; só o fundado na revelação divina é o mais forte. Receber não dispensa pensar.

O historiador Jaroslav Pelikan contrapôs a tradição como fé viva dos mortos ao tradicionalismo como fé morta dos vivos. A distinção ajuda a separar a transmissão de uma herança de sua repetição sem compreensão. Receber o passado continua a exigir decisões no presente.

Há ainda um terceiro sentido, mais técnico, que convém não misturar com os anteriores. Para René Guénon, a palavra designa princípios de origem supra-humana transmitidos por formas religiosas e iniciáticas; a escola que saiu da obra dele ficou conhecida como tradicionalista ou perenialista.

O que fazer com o que você recebeu

Faça uma lista curta: três coisas que você recebeu de quem veio antes e que gostaria de entregar adiante. Uma oração, um livro, um jeito de receber visitas, uma receita. Depois pergunte, de cada uma, se você a entende o bastante para explicá-la a um filho que pergunte por quê. O que você não sabe explicar, você ainda pode aprender; é assim que a tradição deixa de ser hábito e volta a ser entrega.

Leitura recomendada

  • Ortodoxia Amazon ↗, de G. K. Chesterton (Ecclesiae, 2ª ed.): tradução de Murilo Resende Ferreira. É o livro em que Chesterton conta como chegou à fé, com humor e paradoxo; o capítulo 4, onde está a "democracia dos mortos", pode ser lido à parte.

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