Um empresário passa anos montando uma operação sólida e perde metade dela numa crise que não previu. Outro, sem preparo nenhum, enriquece porque estava no lugar certo quando o vento mudou. Diante das duas histórias, a pergunta é velha: quanto do que acontece depende de nós e quanto depende da sorte? Nicolau Maquiavel deu a essa pergunta, no começo do século XVI, uma resposta que ainda se estuda nas aulas de filosofia política.
Em Maquiavel, a virtù aparece como a capacidade de quem governa de agir com energia, inteligência e firmeza para tomar e conservar o poder, aproveitando a ocasião; a fortuna, como a parte das circunstâncias que escapa ao controle humano, a sorte variável dos acontecimentos. A tese central sobre virtù e fortuna está no capítulo XXV de O príncipe: a fortuna pode ser árbitra de metade das nossas ações, e a outra metade, "ou pouco menos", fica conosco.
O rio e os diques
O capítulo XXV tem um título que já resume o problema: "Quanto pode a fortuna nas coisas humanas, e de que modo se pode resistir a ela". Maquiavel começa reconhecendo que muitos, no tempo dele, pensavam que as coisas do mundo eram governadas pela fortuna e por Deus, de modo que de nada adiantaria lutar contra elas. Confessa até que, pensando nas reviravoltas que tinha visto, às vezes se inclinava a essa opinião.
Mas recua por um motivo explícito: "para que o nosso livre-arbítrio não se extinga". E propõe a divisão: "julgo poder ser verdade que a fortuna seja árbitra da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou pouco menos" (as citações de Maquiavel são tradução nossa do texto italiano).
Em seguida vem a imagem mais famosa. A fortuna é comparada a um "rio devastador" que, quando se enfurece, alaga as planícies, derruba árvores e casas, arrasta a terra de um lado para o outro, e diante dele todos fogem. Isso não impede, diz Maquiavel, que os homens, "quando são tempos calmos", façam provisões "com reparos e com diques", de modo que, na cheia seguinte, o rio corra por um canal ou o ímpeto dele seja menos danoso. A conclusão: a fortuna "demonstra a sua potência onde não há virtù ordenada para lhe resistir", e lança os seus ímpetos para onde sabe que não foram feitos os diques.
A Itália do tempo dele, escreve, era "uma planície sem diques e sem nenhum reparo". Se tivesse sido protegida por virtù conveniente, como a Alemanha, a Espanha e a França, a inundação não teria causado as grandes mudanças que causou, ou nem teria chegado.
A imagem destaca a preparação: nos tempos calmos, ainda é possível construir diques e reduzir os danos de uma cheia futura. A virtù, nessa passagem, inclui a capacidade de organizar uma resistência antes que a crise chegue.
Por que um mesmo príncipe acerta e depois fracassa
A segunda metade do capítulo trata de uma observação que qualquer leitor pode testar na própria experiência. Vemos um príncipe prosperar hoje e arruinar-se amanhã sem que tenha mudado de natureza. Maquiavel explica: é feliz aquele cujo modo de proceder combina com "a qualidade dos tempos", e infeliz aquele cujo modo de proceder destoa deles.
Um homem cauteloso prospera enquanto os tempos pedem cautela; quando pedem ímpeto, ele não sabe mudar e cai. O exemplo é o papa Júlio II, que agiu "em todas as suas coisas impetuosamente" e encontrou os tempos tão de acordo com esse modo que sempre teve bom resultado. Maquiavel suspeita que, se tivessem vindo tempos que pedissem cautela, Júlio teria fracassado, porque nunca se afastaria do modo a que a natureza o inclinava. Daí a frase: se alguém mudasse de natureza com os tempos e as coisas, não mudaria de fortuna.
O capítulo termina com uma comparação que hoje soa mal: é melhor ser impetuoso que cauteloso, "porque a fortuna é mulher, e é necessário, querendo submetê-la, bater nela e contrariá-la". A imagem é do repertório do século XVI e diz muito sobre o autor e a época. O argumento por trás dela é mais simples: a ousadia, segundo ele, costuma vencer mais vezes que a frieza calculista.
A virtù dos fundadores
Para entender o que Maquiavel chama de virtù, o capítulo VI é tão importante quanto o XXV. Ali ele trata dos que se tornaram príncipes pela própria virtù, com armas próprias, e cita Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu. Examinando as vidas deles, diz, não se vê que tenham recebido da fortuna outra coisa além da ocasião, uma matéria em que puderam imprimir a forma que quiseram. "Sem aquela ocasião, a virtù do ânimo deles se teria apagado, e sem aquela virtù a ocasião teria vindo em vão."
A fórmula é útil porque mostra que virtù e fortuna não competem pelo mesmo espaço. A fortuna oferece a ocasião; a virtù a reconhece e a aproveita. Maquiavel acrescenta que quem chega ao poder assim o conquista com dificuldade e o mantém com facilidade, e avisa que não há nada mais difícil nem mais perigoso que se fazer chefe para introduzir uma ordem nova.
No capítulo VII, Cesare Borgia mostra como virtù e fortuna podem coexistir. Ele recebeu o Estado com o auxílio do pai, o papa Alexandre VI, e tentou criar condições para sustentá-lo por conta própria. Maquiavel elogia muitas dessas medidas e atribui grande peso à morte do papa e à doença do duque na queda que se seguiu. Mas também aponta um erro político de Borgia: ter consentido na eleição de Júlio II, que tinha motivos para ser seu inimigo. O episódio reúne condições adversas e uma escolha malsucedida; não demonstra que a virtù torne alguém imune à derrota.
A ocasião do capítulo XXVI
O capítulo final, uma "exortação a libertar a Itália dos bárbaros", aplica a fórmula do capítulo VI ao presente de Maquiavel. Ele se pergunta se havia na Itália "matéria que desse ocasião a alguém prudente e virtuoso de introduzir nela nova forma" e responde que não sabe de tempo mais propício a um príncipe novo. O raciocínio repete o dos fundadores. Assim como foi preciso que o povo de Israel fosse escravo no Egito para que se visse a virtù de Moisés, era preciso que a Itália chegasse ao estado em que estava, "sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, dilacerada", para que se conhecesse a virtù de um espírito italiano. A ruína, nesse esquema, é a própria ocasião.
Em seguida, dirigindo-se à casa dos Médici, a quem o livro é dedicado, Maquiavel enumera sinais que lembram o Êxodo (o mar que se abriu, a nuvem que guiou, a água que brotou da pedra, o maná) e conclui: "o restante deveis fazer vós. Deus não quer fazer tudo, para não nos tirar o livre-arbítrio e parte daquela glória que nos cabe." O capítulo pede, por fim, que não se deixe "passar esta ocasião". A menção ao livre-arbítrio retoma a do capítulo XXV, e a divisão de tarefas fica explícita: a ocasião é dada, e cabe à virtù aproveitá-la.
Virtù e virtude
A palavra é a mesma, e o sentido mudou bastante. Para Aristóteles, a virtude moral nasce do hábito e é uma disposição do caráter que escolhe o meio-termo, determinado pela razão do homem prudente (Ética a Nicômaco, livro II, caps. 1 e 6). Coragem, temperança e justiça se adquirem praticando atos corajosos, temperantes e justos, como explicamos no resumo da Ética a Nicômaco. A virtù de Maquiavel é outra coisa: um conjunto de qualidades medido pelo resultado político, a capacidade de conquistar, manter e fundar Estados.
Mesmo assim, Maquiavel não a separa completamente do juízo moral. No capítulo VIII, ao tratar de Agátocles, tirano de Siracusa que chegou ao poder mandando matar os senadores e os cidadãos mais ricos, ele reconhece a coragem e a grandeza de ânimo do personagem, mas escreve: "não se pode chamar virtù matar os próprios cidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem religião; esses modos podem fazer adquirir império, mas não glória". A crueldade de Agátocles, conclui, não permite que ele seja celebrado entre os homens excelentes.
Maquiavel tratou diretamente da relação entre a virtù e o cristianismo nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (livro II, cap. 2). Ali ele compara a religião antiga, que glorificava capitães e chefes de repúblicas, com a cristã, que "glorificou mais os homens humildes e contemplativos que os ativos". Diz que esse modo de viver parece ter tornado o mundo fraco e o ter entregue aos homens celerados. E, logo em seguida, faz uma ressalva: essa fraqueza nasce, "sem dúvida", da covardia dos homens, "que interpretaram a nossa religião segundo o ócio, e não segundo a virtù".
A tradição católica responde com o próprio vocabulário das virtudes. O Catecismo conta a fortaleza entre as quatro virtudes cardeais e a relaciona à firmeza e à constância na busca do bem. A prudência orienta a escolha dos meios adequados a esse bem. Na comparação que propomos, a eficácia política descrita por Maquiavel precisa ser examinada também por seus fins e meios: uma ação bem-sucedida na conquista do poder ainda pode ser moralmente injusta. Essa é uma avaliação editorial a partir da tradição católica, preservando a distinção que o próprio Maquiavel faz entre conquistar poder e alcançar glória.
Olavo de Carvalho dedicou ao florentino o ensaio Maquiavel ou a confusão demoníaca. Segundo a sinopse da Vide Editorial, o texto nasceu do curso de filosofia política que ele deu em 2004 a alunos de Administração Pública da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, foi pensado como capítulo de uma obra maior sobre a mentalidade revolucionária e acabou editado à parte em 2011, por causa da extensão.
Lidos juntos, os capítulos VI, XXV e XXVI mostram que a dupla virtù e fortuna atravessa O príncipe inteiro, da fundação de Estados à exortação final.
Leitura recomendada
- Nicolau Maquiavel, O príncipe Amazon ↗, trad. Maurício Santana Dias (Penguin-Companhia).
- Olavo de Carvalho, Maquiavel ou a confusão demoníaca Amazon ↗ (Vide Editorial).
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