Ludwig Wittgenstein foi um filósofo nascido em Viena, em 1889, e morto em Cambridge, em 1951. Seus trabalhos abordam problemas de lógica, linguagem, matemática e experiência mental. Dois livros ajudam a acompanhar esse percurso: o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações filosóficas. Eles apresentam mudanças importantes de método e de problemas.
A divisão entre um primeiro e um segundo Wittgenstein pode orientar a leitura, desde que não transforme sua trajetória em dois blocos sem relação. Há uma preocupação recorrente com as confusões filosóficas e com o papel da linguagem. O modo de investigá-las, porém, se modifica. Ler os dois livros como capítulos de um único sistema pronto apaga parte desse trabalho.
Um percurso entre Cambridge e outras ocupações
Wittgenstein estudou em Berlim e Manchester antes de se vincular a Cambridge, onde entrou em contato com Bertrand Russell. Serviu na Primeira Guerra Mundial e, em outros períodos, trabalhou como professor em escolas austríacas. Sua vida acadêmica teve interrupções. Foi professor de filosofia em Cambridge de 1939 a 1947.
O Tractatus apareceu em alemão em 1921 e em edição bilíngue em 1922. As Investigações filosóficas foram publicadas postumamente em 1953. O segundo livro pertence a um trabalho posterior, preservado e editado depois da morte do autor. O conjunto de seus manuscritos amplia a investigação da passagem entre os períodos.
O problema do Tractatus
O Tractatus investiga relações entre linguagem, pensamento e mundo. A proposição 1.1 apresenta o mundo como totalidade de fatos, em vez de uma coleção de coisas. Nas proposições 4.111 e 4.112, a filosofia é distinguida das ciências naturais e caracterizada como atividade de esclarecimento lógico. Seu resultado deveria ser a clareza das proposições.
O final do livro cria uma dificuldade para sua própria leitura. Em 6.54, Wittgenstein compara suas proposições a uma escada que deve ser ultrapassada. A frase final sobre o silêncio, portanto, não deve ser tomada como um conselho avulso para evitar assuntos difíceis. Ela pertence à discussão sobre o que pode ser dito e o que o livro procura esclarecer.
Ao estudar essas passagens, anote uma pergunta: o autor está oferecendo uma descrição, estabelecendo um limite ou tentando transformar o modo como o leitor vê o problema? A resposta interfere na interpretação do livro. Um resumo que apresente todas as frases como teses comuns pode deixar de perceber essa tensão.
Nas Investigações, observar os usos
As Investigações filosóficas trabalham com exemplos, perguntas e objeções. No parágrafo 23, Wittgenstein chama a atenção para a variedade das atividades em que a linguagem participa. Fazer uma pergunta, dar uma ordem, narrar e brincar não são apenas versões menores de uma função única. A expressão jogos de linguagem ajuda a examinar essa diversidade.
No parágrafo 43, o autor explica o significado de uma palavra por seu uso na linguagem para uma ampla classe de casos, ressalvando que a explicação não cobre todos eles. A ressalva costuma desaparecer quando a passagem vira um lema. Já nos parágrafos 66 e 67, a comparação entre jogos introduz as semelhanças de família: relações sobrepostas podem importar mais do que uma característica única presente em todos.
Como exemplo editorial, a palavra ordem pode nomear um comando, uma disposição dos objetos ou uma instituição religiosa. Antes de discutir o que a ordem é em si, precisamos saber qual uso está em questão. Reconhecer isso não resolve toda pergunta filosófica, mas impede que sentidos diferentes sejam tratados como se fossem o mesmo.
O que muda e o que merece comparação
No primeiro livro, a investigação se concentra em questões de representação e forma lógica. No trabalho posterior, a multiplicidade dos usos e as práticas em que as palavras operam ganham relevo. A comparação precisa respeitar exemplos, objetivos e procedimentos de cada obra.
Também seria precipitado dizer que a obra posterior simplesmente torna tudo relativo ou autoriza cada pessoa a atribuir qualquer significado às palavras. A atenção ao uso inclui critérios de emprego e possibilidades de compreensão e correção. Para discutir um conceito, ainda é necessário mostrar como ele funciona em situações que possam ser reconhecidas.
Outro erro é tratar jogos de linguagem como uma teoria de manipulação. O nome jogo não implica falsidade, arbitrariedade moral ou ausência de seriedade. Uma oração, um cálculo e uma promessa podem ser examinados como atividades linguísticas sem se tornarem equivalentes quanto à finalidade e à avaliação.
Como começar sem depender de frases famosas
Para ler o Tractatus Logico-Philosophicus Amazon ↗, acompanhe a numeração hierárquica e a relação entre uma proposição e seus desdobramentos. Nas Investigações filosóficas Amazon ↗, procure reconstruir o exemplo e a objeção a que cada observação responde. As buscas não identificam uma edição específica: confira tradutor e apresentação editorial.
Um caderno pode ter três colunas: passagem, problema e exemplo. Copie poucas palavras e guarde a referência numérica. Depois, formule um caso próprio e verifique se a observação ainda faz sentido nele. Se o exemplo falhar, volte à passagem antes de concluir que encontrou uma regra universal.
