Benjamin Franklin (1706–1790) foi impressor, editor, escritor, pesquisador da eletricidade, inventor, diplomata e agente político. A variedade de suas atividades costuma render o retrato de um gênio isolado. Sua trajetória mostra algo mais concreto: Franklin construiu redes, instituições e públicos capazes de transformar curiosidade em ação coletiva.

Também foi um homem do século XVIII, com posições que mudaram ao longo da vida. Uma leitura séria precisa relacionar suas realizações às contradições da sociedade colonial, sobretudo a escravidão.

Do aprendizado de impressor à Filadélfia

Franklin nasceu em Boston em 17 de janeiro de 1706, o décimo quinto de dezessete filhos de Josiah Franklin. Teve pouca educação escolar formal. Aos doze anos, tornou-se aprendiz do irmão James, impressor do New-England Courant Amazon , e publicou anonimamente as cartas da personagem Silence Dogood.

Rompeu o contrato de aprendizagem e chegou à Filadélfia em 1723. Depois de uma passagem por Londres, estabeleceu-se como impressor. Comprou a Pennsylvania Gazette Amazon e publicou de 1732 a 1758 o Poor Richard's Almanack Amazon , que misturava calendário, informação prática, humor e máximas. Muitas sentenças associadas a Franklin adaptam provérbios anteriores; não nasceram todas com ele.

Associações e vida cívica

Em 1727, Franklin reuniu o Junto, grupo de discussão e aperfeiçoamento mútuo. Projetos ligados a esse ambiente ajudaram a formar uma biblioteca por assinatura, uma companhia de bombeiros, a futura Universidade da Pensilvânia e a American Philosophical Society.

Essas iniciativas expressam sua noção de melhoria: observar um problema, organizar pessoas e criar uma instituição durável. A imagem do indivíduo que vence apenas por disciplina, popularizada por certas leituras da Autobiografia Amazon , omite essa dimensão associativa.

Eletricidade e invenções

Franklin investigou carga elétrica, condutores e o comportamento das garrafas de Leyden. Propôs a terminologia de carga positiva e negativa e defendeu que o relâmpago era um fenômeno elétrico. Seus trabalhos foram reunidos em Experiments and Observations on Electricity Amazon , cuja primeira edição saiu em Londres em 1751.

O célebre experimento da pipa, realizado em 1752 segundo relatos próximos ao evento, não consistia em ser atingido por um raio. A ideia era detectar carga numa nuvem de tempestade; repetir a cena popular seria mortal. O para-raios aplicou a pesquisa a um risco cotidiano.

Franklin também desenvolveu uma estufa mais eficiente, estudou correntes oceânicas, projetou óculos bifocais e um instrumento musical de vidro. Em vez de patentear suas invenções, declarou preferir que fossem úteis ao público. Isso não significa que toda invenção atribuída posteriormente a ele esteja documentada.

Da política colonial à independência

Franklin representou interesses coloniais em Londres e participou do Congresso de Albany de 1754, onde propôs uma união intercolonial que não foi adotada. Durante a crise do imposto do selo, seu depoimento no Parlamento em 1766 contribuiu para explicar a resistência americana.

Foi membro do Segundo Congresso Continental e participou do comitê que redigiu a Declaração de Independência. Na França, negociou apoio financeiro e militar decisivo para a guerra. Depois participou das negociações do Tratado de Paris de 1783 e, já idoso, da Convenção Constitucional de 1787.

Escravidão e mudança de posição

Franklin publicou anúncios de compra e venda de pessoas escravizadas e manteve pessoas em escravidão em sua casa durante parte da vida. Mais tarde, aproximou-se do abolicionismo. Em 1787, tornou-se presidente da Pennsylvania Society for Promoting the Abolition of Slavery e, em 1790, apresentou ao Congresso uma petição pelo fim do tráfico e da escravidão.

A mudança importa, mas não apaga sua participação anterior. Ela permite estudar tanto a capacidade de revisão moral quanto os limites de uma geração que proclamou direitos universais enquanto preservava a escravidão.

Como ler a Autobiografia

Franklin escreveu a Autobiografia Amazon em etapas entre 1771 e 1790, sem concluí-la; o texto circulou postumamente em versões diferentes. A lista de treze virtudes e o método de acompanhamento diário são parte de uma narrativa construída para instruir o leitor. Não constituem um diário neutro de toda a vida.

Leia a obra ao lado de suas cartas, ensaios e documentos políticos. Assim aparece um Franklin menos mítico: hábil em autopresentação, atento à experiência e dependente de colaboração, comércio e instituições.