A Ética a Nicômaco Amazon , de Aristóteles, investiga em que consiste viver bem e como se forma o caráter necessário para isso. Ao longo de dez livros, o filósofo examina felicidade, virtude, responsabilidade, justiça, prudência, prazer e amizade. A pergunta orientadora é prática: qual é o bem que deve dirigir a vida humana?
Felicidade como atividade
No livro I, Aristóteles observa que nossas ações buscam fins: a medicina procura a saúde; certas técnicas produzem instrumentos; a riqueza serve a outras finalidades. A investigação ética procura um fim desejado por si mesmo, em função do qual os demais possam ser ordenados. Esse fim é chamado eudaimonia, geralmente traduzido como felicidade.
A definição não se refere apenas a sentir satisfação. Aristóteles entende o bem humano como atividade da alma de acordo com a virtude, ao longo de uma vida completa. A capacidade racional ocupa lugar central porque distingue a atividade propriamente humana. Também são necessários certos bens externos: a falta extrema de recursos ou grandes infortúnios podem prejudicar uma vida boa. O argumento está nos capítulos 7–10 do livro I.
Virtude, hábito e escolha
O livro II distingue virtudes intelectuais, desenvolvidas sobretudo pelo ensino, e virtudes do caráter, formadas pelo hábito. Aprendemos a agir justamente praticando ações justas, assim como aprendemos uma atividade exercendo-a. Mas um ato exteriormente correto não basta para mostrar que alguém é virtuoso: é preciso conhecer o que se faz, escolher a ação por ela mesma e agir a partir de uma disposição estável.
A virtude moral procura a medida adequada nas paixões e ações. A coragem, por exemplo, se distingue tanto da covardia quanto da temeridade. Esse meio-termo é relativo às circunstâncias e à pessoa; não corresponde a uma média aritmética. Tampouco toda ação admite medida correta: Aristóteles inclui roubo e assassinato entre os atos que já são maus por sua natureza. Essas precisões aparecem no livro II.
Os livros III e IV desenvolvem a análise das virtudes particulares e das condições da responsabilidade. Agir voluntariamente, agir por ignorância e agir sob coação não são situações equivalentes. A escolha envolve deliberação sobre aquilo que está ao nosso alcance, e a formação do caráter interfere no que passamos a desejar.
Justiça e prudência
O livro V trata da justiça. Em sentido amplo, ela é o exercício da virtude nas relações com os outros. Em sentido particular, envolve distribuições e correções: distribuir bens e encargos segundo uma proporção pertinente é diferente de reparar um dano ou desequilíbrio entre pessoas.
O livro VI examina as virtudes intelectuais. Entre elas, a prudência, ou phronesis, é a capacidade de deliberar bem sobre a ação e a vida humana. Ela exige experiência e percepção do caso particular. Conhecer uma regra geral não garante que se compreenda o que a situação pede. A prudência também não se confunde com habilidade para alcançar qualquer objetivo: sua ligação com o bom caráter impede reduzi-la à eficiência.
Agir contra o próprio julgamento
No livro VII, Aristóteles enfrenta a incontinência, ou akrasia: a situação de quem age sob a força de um desejo contra aquilo que considera melhor. Ele diferencia esse conflito do vício plenamente assumido. O incontinente conserva um julgamento correto, mas não o exerce adequadamente no momento da ação; o vicioso pode tomar o próprio objetivo mau como desejável.
A distinção amplia o problema ético. A falha moral não nasce sempre da ausência de informação. Pode envolver hábitos, paixões e o modo como um conhecimento participa efetivamente da decisão.
Amizade, prazer e contemplação
Os livros VIII e IX distinguem amizades fundadas na utilidade, no prazer e na apreciação do caráter do outro. Na amizade mais completa, cada um deseja o bem do amigo por ele mesmo. Aristóteles relaciona amizade, convivência e autoconhecimento, e considera os amigos necessários mesmo à pessoa feliz. A classificação começa no livro VIII.
O prazer é discutido nos livros VII e X. No encerramento, Aristóteles atribui à contemplação a forma mais elevada de felicidade, por ser atividade da melhor capacidade humana e ter seu fim em si mesma. Isso não elimina as virtudes práticas nem as necessidades corporais e sociais. A conclusão retorna à educação e às leis, preparando a investigação política: a formação de uma vida boa depende também das condições de convivência. Esse movimento fecha o livro X.
