Olavo de Carvalho propôs uma classificação dos gêneros literários baseada nas condições de existência da linguagem. Em vez de tratar os gêneros apenas como convenções históricas, ele procura relacioná-los a três princípios: número, tempo e espaço.
A teoria foi apresentada no ensaio Os Gêneros Literários: seus fundamentos metafísicos Amazon e depois incorporada a A Dialética Simbólica Amazon . Ela deve ser entendida como uma formulação própria do autor, distinta das classificações usuais dos manuais de literatura.
Verso e prosa
O primeiro princípio é o número, entendido pela distinção tradicional entre quantidade discreta e contínua. Olavo associa o verso à quantidade discreta, porque cada verso forma uma unidade delimitada que se repete. A prosa é associada à quantidade contínua, pois o discurso avança sem depender dessa divisão regular.
Essa é a divisão mais geral do esquema. Para o autor, qualquer gênero literário pode realizar-se em verso ou em prosa, de modo que a oposição não coincide com a diferença entre poesia e narrativa.
Narração e exposição
O tempo fundamenta os gêneros narrativos, nos quais fatos e ações aparecem em sucessão. O espaço fundamenta os gêneros expositivos, nos quais elementos são apresentados por relações de simultaneidade, ordem ou posição.
Esses princípios podem aparecer combinados numa mesma obra. Um romance, por exemplo, pode alternar desenvolvimento narrativo e passagens descritivas ou expositivas. A classificação procura identificar qual relação organiza cada parte e como elas se articulam no conjunto.
Drama, épica e lírica
Dentro dos gêneros narrativos, Olavo distingue modos diferentes de apresentar a ação. O drama atualiza a ação diante do espectador por meio da representação cênica. A épica evoca acontecimentos por uma voz narrativa e os organiza como uma ação contada.
A lírica ocupa outra posição no esquema. Para Olavo, ela tende a retirar a experiência da sucessão narrativa e da disposição expositiva, concentrando-a num instante que aspira à permanência. Isso não significa que todo poema lírico dispense tempo e espaço, mas que sua forma dominante não depende de contar uma sequência de acontecimentos.
Relação com a teoria dos quatro discursos
A teoria dos gêneros examina a forma assumida pelo discurso. A teoria dos quatro discursos, por sua vez, distingue os graus de credibilidade buscados pela poética, pela retórica, pela dialética e pela analítica. As duas classificações tratam de aspectos diferentes e podem ser usadas em conjunto.
Um texto dramático ou narrativo ainda pode empregar recursos poéticos, retóricos ou dialéticos. “Gênero” e “discurso”, portanto, não são nomes diferentes para a mesma divisão.
Como usar a teoria na leitura
O esquema chama a atenção para a forma concreta do texto. Antes de resumir o assunto de uma obra, o leitor pode perguntar se ela narra uma ação, expõe relações, representa acontecimentos ou concentra uma experiência lírica. Em seguida, pode observar como verso e prosa alteram o ritmo e a organização do material.
Esse procedimento não encerra a interpretação, mas oferece um vocabulário para descrever o que o texto faz. Para aprofundar a relação com os graus do discurso, consulte Aristóteles em Nova Perspectiva. A reunião de ensaios em que o texto foi republicado é apresentada no artigo sobre A Dialética Simbólica.
Onde consultar
O arquivo de Olavo de Carvalho mantém uma tradução inglesa do ensaio. O texto Elementos da filosofia de Olavo de Carvalho também resume a relação entre número, tempo, espaço e linguagem.
