Gnose vem do grego gnôsis, que significa conhecimento. Em contextos religiosos, a palavra pode designar um conhecimento da realidade divina e da condição humana ao qual se atribui uma função de salvação ou libertação. Seu sentido depende da tradição e do texto em que aparece.

É útil distinguir esse emprego amplo do termo gnosticismo, usado pelos estudiosos para reunir determinadas correntes religiosas da Antiguidade. Há ainda um terceiro uso: a aplicação de categorias gnósticas à interpretação de movimentos políticos e intelectuais modernos, como fizeram Eric Voegelin e Olavo de Carvalho.

O gnosticismo antigo

As correntes geralmente chamadas gnósticas floresceram nos primeiros séculos da era cristã, em ambientes nos quais se encontravam tradições judaicas, cristãs e filosóficas gregas. Entre os nomes mais conhecidos estão Valentino e Basílides. Seus seguidores produziram explicações diferentes sobre a origem do mundo, o mal e a salvação.

Um tema recorrente é a distância entre a realidade divina superior e o mundo em que o ser humano vive. Certos relatos atribuem a formação do cosmos a um demiurgo, um criador inferior, distinguido do Deus supremo. Um exemplo encontra-se na exposição das doutrinas valentinianas feita por Irineu em Contra as Heresias, livro I, capítulo 5. A condição humana é interpretada a partir do esquecimento, da ignorância ou do afastamento de uma origem divina.

O conhecimento salvador revela ao indivíduo de onde ele vem, qual é sua situação e como pode retornar ao princípio superior. Assim, conhecer não significa apenas receber informações: a revelação transforma a compreensão que a pessoa tem de si e de sua existência.

Doutrinas e práticas diferentes

Essas características aparecem em combinações variadas. O demiurgo pode ser descrito como ignorante, limitado ou hostil. A relação com o corpo, os ritos, a disciplina moral e as Escrituras também varia. Não se deve supor que todos os textos reunidos sob o nome gnosticismo ensinem uma única doutrina.

Irineu de Lião, autor cristão do século II, combateu principalmente doutrinas de grupos que considerava incompatíveis com a fé recebida pela Igreja. A controvérsia envolvia a identidade do criador, a interpretação das Escrituras e a natureza da salvação. Esses escritos polêmicos são fontes históricas importantes, mas precisam ser lidos levando em conta o propósito de refutação de seus autores.

A descoberta de códices coptas perto de Nag Hammadi, no Egito, em 1945, ampliou muito o acesso a textos antigos. Obras como o Apócrifo de João Amazon permitiram conhecer diretamente sistemas antes conhecidos sobretudo por seus adversários. A pesquisa sobre o gnosticismo também passou a discutir se essa categoria reúne adequadamente materiais tão diversos. Nem todo escrito da coleção apresenta a mesma visão religiosa.

Gnose como conhecimento religioso

O substantivo grego tem alcance maior que o nome moderno de uma família de movimentos. Um autor pode empregar gnôsis simplesmente para falar de conhecimento, inclusive em textos cristãos que rejeitam doutrinas classificadas como gnósticas.

Em correntes esotéricas modernas, a palavra também pode designar um saber espiritual ou metafísico. Para compreender cada ocorrência, é necessário perguntar qual conhecimento está sendo proposto, como se afirma alcançá-lo e que relação ele mantém com a salvação. A presença do vocábulo, por si só, não demonstra filiação a uma escola antiga.

Voegelin e o uso político do termo

Em obras como A Nova Ciência da Política Amazon e Ciência, Política e Gnosticismo Amazon , reunidas em Modernity without Restraint, Eric Voegelin utilizou o gnosticismo como categoria para interpretar tendências da modernidade. Sua crítica se dirige, entre outros pontos, à pretensão de realizar uma salvação definitiva por meio da transformação histórica e política.

Nessa análise, um projeto pode atribuir a um grupo o conhecimento do curso da história e apresentar uma reorganização total da sociedade como solução final para o sofrimento humano. Trata-se de uma interpretação filosófica da política. A comparação de estruturas de pensamento e a demonstração de uma continuidade histórica são questões diferentes, que exigem argumentos e fontes próprios.

A leitura de Olavo de Carvalho

Em “Gnósticos e revolucionários”, de 2001, Olavo retoma Voegelin e sustenta haver ligações entre a rejeição gnóstica da ordem do mundo e projetos revolucionários modernos. O ponto comum, segundo ele, seria uma visão do cosmos como realidade hostil, que suscita fuga ou revolta.

No mesmo artigo, Olavo critica a ideia de reunir todas as religiões não católicas numa conspiração gnóstica contra a Igreja. Esse detalhe delimita sua posição. Seu emprego do termo deve ser compreendido como uma tese própria sobre a história e a política, distinta tanto do significado grego de conhecimento quanto da descrição de uma comunidade religiosa antiga.