Gustavo Corção (1896–1978) foi um escritor brasileiro cuja obra reúne autobiografia, romance, crítica literária, reflexão religiosa e artigos de imprensa. Sua conversão ao catolicismo marcou a escrita, mas seus livros têm propósitos distintos: A descoberta do outro Amazon narra uma transformação pessoal; Lições de abismo Amazon acompanha um homem diante da morte; O desconcerto do mundo Amazon examina poesia, ficção e pintura.
Trajetória e atividade intelectual
Nascido no Rio de Janeiro, Corção trabalhou com eletrônica e telecomunicações e lecionou em instituições de ensino técnico e de engenharia. Sua atividade literária ganhou forma mais tarde. A morte da primeira mulher e a aproximação do catolicismo fizeram parte da experiência que ele retomaria em seu livro de estreia, publicado em 1944. A biografia da Global Editora registra essa passagem da atuação técnica para uma presença também literária e jornalística.
Corção participou do ambiente intelectual católico ligado ao Centro Dom Vital. Escreveu em jornais e, nas décadas de 1950 e 1960, tornou-se um opositor das correntes progressistas dentro da Igreja. Suas controvérsias com a Juventude Universitária Católica foram estudadas por Christiane Jalles de Paula, que as situa nas disputas entre gerações e projetos de participação política dos católicos brasileiros.
Em 1968, fundou o movimento Permanência. Morreu no Rio em 1978. A documentação preservada pela Biblioteca Nacional permite acompanhar sua correspondência e sua atuação pública. Essa dimensão pertence à sua biografia, mas não substitui a leitura dos diferentes gêneros que praticou.
A descoberta do outro
Publicado em 1944, A descoberta do outro Amazon é uma narrativa autobiográfica de formação religiosa. O centro do livro é a mudança na maneira de perceber as outras pessoas: deixar de tratá-las como figuras subordinadas aos próprios interesses e reconhecer nelas uma existência independente, que exige atenção e caridade. A apresentação bibliográfica da Revista do Livro, nº 57 destaca esse vínculo entre experiência pessoal e descoberta do próximo.
É uma entrada adequada para conhecer a voz do autor e o lugar da fé em sua obra. Convém lê-lo como relato de uma experiência particular, não como uma exposição sistemática de teologia nem como uma biografia completa.
Três alqueires e uma vaca
Em Três alqueires e uma vaca Amazon , Corção apresenta G. K. Chesterton e discute ideias que encontrou no escritor inglês. O livro combina retrato intelectual, comentários de leitura e recordações pessoais. Propriedade, liberdade, vida doméstica e experiência cotidiana entram na conversa, num diálogo com o humor e os paradoxos de Chesterton. A sinopse da edição da Vide explicita esse caráter híbrido.
Não se trata, portanto, de uma cronologia exaustiva da vida de Chesterton. O interesse está também em perceber como um autor brasileiro o leu e incorporou suas perguntas. Para quem já conhece algum livro do inglês, essa conversa entre escritores costuma ser mais proveitosa.
Lições de abismo
Seu único romance tem como protagonista José Maria, professor que recebe um diagnóstico de doença terminal. Diante do pouco tempo que lhe resta, ele revê a própria vida e enfrenta questões sobre a morte, o sofrimento e o sentido de sua existência. A situação é apresentada na seção bibliográfica da Revista do Livro.
O tempo interior do personagem importa mais que uma sucessão de acontecimentos externos. Por isso, a leitura pede atenção às mudanças de disposição, às lembranças e à distância entre aquilo que ele diz e aquilo que consegue aceitar. É o título indicado para conhecer Corção como ficcionista.
O desconcerto do mundo
O desconcerto do mundo Amazon reúne três ensaios: um sobre Camões e as relações entre experiência poética e experiência mística; outro sobre Machado de Assis e Eça de Queirós, com atenção ao pessimismo; e um terceiro sobre pintura. Essa composição aparece na apresentação editorial da obra.
O livro mostra uma vertente que as polêmicas jornalísticas podem deixar em segundo plano: o leitor de literatura e observador das artes. É uma boa escolha para quem deseja conhecer seus critérios de interpretação. Já os interessados no pensamento religioso e político podem avançar para Dois amores, duas cidades Amazon e suas coletâneas de artigos, situando-as nos debates históricos em que foram escritas.
