Parresía Amazon é uma palavra grega que pode ser traduzida por franqueza, fala aberta ou liberdade de falar. Em certos contextos filosóficos, designa a disposição de dizer a verdade mesmo quando isso desagrada ao interlocutor e expõe quem fala a algum risco.
Seus usos antigos são variados. A palavra aparece na vida política, na discussão filosófica e nas relações pessoais. A ênfase na coragem diante do perigo tornou-se especialmente conhecida pela interpretação que Michel Foucault desenvolveu em seus últimos cursos.
A palavra na vida política grega
Na democracia ateniense, a possibilidade de falar abertamente tinha importância para a participação do cidadão. A liberdade da fala permitia discutir decisões da cidade e criticar propostas. Essa condição, porém, estava vinculada a uma cidadania restrita, que excluía grande parte dos habitantes.
A literatura grega também mostrava a ligação entre posição social e liberdade de expressão. Ao analisar as tragédias de Eurípides, Foucault destaca personagens para os quais a condição de estrangeiro ou exilado limita a possibilidade de falar sem submissão.
A abertura da fala trazia um problema político: quem participa de uma deliberação pode procurar o bem da cidade, mas também pode buscar apoio por meio de promessas agradáveis. A liberdade para tomar a palavra não assegura, por si só, a qualidade do conselho oferecido.
Franqueza e exame filosófico
No Górgias, de Platão, Sócrates relaciona uma conversa capaz de examinar a alma a três qualidades do interlocutor: conhecimento, benevolência e franqueza. A passagem está no encontro com Cálicles, que critica sem reservas a maneira socrática de viver.
O interesse da situação está na possibilidade de testar uma convicção. Um interlocutor que apenas concorda por cortesia pode deixar um erro intacto. Alguém capaz de expor uma objeção real permite investigar se a posição defendida resiste ao exame.
Isso não torna a franqueza suficiente. Uma pessoa pode estar convencida de algo falso. A confiança em quem fala precisa ser acompanhada pela consideração das razões apresentadas. No diálogo platônico, a investigação continua justamente porque falar com convicção e demonstrar uma tese são atividades diferentes.
A interpretação de Foucault
Nas conferências de Berkeley de 1983, Foucault investiga a parresía como uma prática de dizer a verdade. Seu interesse principal é a relação entre o falante, aquilo que ele reconhece como verdadeiro, o interlocutor e as consequências de sua fala.
Na explicação inicial do termo, ele destaca a franqueza, o compromisso com a verdade, o risco, a crítica e o dever. O indivíduo assume a responsabilidade por sua fala e aceita uma possível perda ao formular uma crítica que julga necessária.
O risco pode envolver a própria vida, mas também uma amizade, uma posição ou o reconhecimento de um grupo. A análise de Foucault considera, por exemplo, a pessoa que adverte um amigo sobre sua conduta e aceita a possibilidade de ofendê-lo. Essa é uma caracterização filosófica específica, e não uma tradução obrigatória de toda ocorrência antiga da palavra.
Como reconhecer o problema hoje
Uma aplicação contemporânea possível é a de um funcionário que apresenta evidências de um erro importante a um superior e assume a responsabilidade por seu relato. A relação entre as duas pessoas importa: o superior pode ter meios de prejudicar quem comunica o problema.
Para examinar esse caso, convém separar algumas perguntas. O relato é bem fundamentado? O funcionário acredita no que diz? Há um interesse em corrigir a situação? Que consequências ele aceita enfrentar? Essas questões mostram por que a discussão envolve mais que o tom firme ou a sinceridade subjetiva.
Também importa o modo de comunicar. Uma crítica pode ser direta e respeitosa, permitir resposta e indicar o que precisa ser corrigido. Humilhar alguém não acrescenta fundamento ao que foi dito. Por outro lado, evitar qualquer desconforto pode impedir que uma informação necessária seja apresentada.
A parresía reúne, assim, problemas da ética e da política: as condições para falar, a responsabilidade por uma afirmação e a coragem exigida por determinadas relações. Estudá-la ajuda a compreender por que a verdade pode depender tanto da investigação quanto da disposição de expressar o que essa investigação mostrou.
