Aristóteles distingue três formas de amizade: por utilidade, por prazer e pelo bem ou virtude. A diferença está na razão pela qual as pessoas se querem bem. Em algumas relações, o vínculo depende de uma vantagem; em outras, do prazer de estar junto; na amizade mais completa, cada pessoa deseja o bem da outra por aquilo que ela é.

A análise ocupa os livros VIII e IX da Ética a Nicômaco Amazon ↗. O termo grego philia tem alcance maior do que a amizade íntima no uso atual: pode incluir laços familiares, relações entre cidadãos e formas de convivência. Por isso, os três tipos devem ser lidos como distinções sobre os fundamentos dos vínculos, não como rótulos psicológicos de pessoas.

O que é necessário para haver amizade?

Não basta gostar de alguém em segredo. Aristóteles exige uma disposição recíproca de querer o bem, conhecida pelos envolvidos. A admiração por uma pessoa distante pode ser benevolência, mas ainda não constitui uma relação de amizade.

Também existe uma diferença entre querer que alguém esteja bem porque isso nos beneficia e desejar seu bem por consideração à própria pessoa. As duas situações podem produzir atos parecidos. O fundamento da relação aparece com mais clareza quando a vantagem diminui ou quando ajudar exige esforço.

1. Amizade por utilidade

Na amizade por utilidade, as pessoas se relacionam principalmente pelo benefício que uma oferece à outra. Uma parceria de trabalho pode envolver confiança, cordialidade e ajuda recíproca, mantendo como fundamento uma atividade que interessa a ambas.

Considere dois vizinhos que se organizam para levar os filhos à escola. A cooperação beneficia as duas famílias. Se os filhos mudam de escola e a convivência desaparece, isso não prova que todos os gestos anteriores tenham sido falsos. Mostra que a relação dependia de uma circunstância determinada.

Aristóteles observa que esse tipo de amizade tende a se dissolver quando deixa de ser útil. Os conflitos surgem especialmente quando os participantes discordam sobre o que cada um deu ou recebeu. Uma pessoa pode entender um gesto como favor desinteressado; a outra, como parte de uma troca.

2. Amizade por prazer

Na amizade por prazer, o vínculo se apoia na satisfação que a convivência oferece. As pessoas gostam de conversar, jogar, viajar ou praticar uma atividade juntas. O amigo é procurado por ser agradável naquela experiência.

Aristóteles associa essa forma com frequência à juventude, em que interesses e afetos podem mudar rapidamente. Isso não a restringe aos jovens. Adultos também mantêm relações sustentadas por um hobby, pelo humor compartilhado ou por uma rotina prazerosa.

Se os gostos mudam, o vínculo pode enfraquecer. Novamente, mudança não é sinônimo de fraude. O erro seria esperar de toda companhia agradável a estabilidade e a profundidade de uma relação fundada no conhecimento do caráter.

3. Amizade pelo bem ou virtude

A amizade mais completa ocorre entre pessoas boas que se querem bem em razão do caráter uma da outra. O amigo não é valorizado apenas como fornecedor de uma vantagem ou de uma experiência agradável. Sua vida e seu bem importam por si mesmos.

Esse vínculo exige tempo. É preciso conhecer a pessoa, observar como age e desenvolver confiança. Uma afinidade instantânea pode abrir uma relação, mas não oferece de imediato o conhecimento que sustenta a amizade descrita por Aristóteles.

A convivência também importa: amigos compartilham atividades e modos de perceber o que merece atenção. Não se trata apenas de manter uma opinião favorável sobre alguém que nunca encontramos. A amizade se exerce na vida em comum, embora a distância não a destrua automaticamente.

As diferenças em uma tabela

FormaFundamento principalO que pode enfraquecê-la
UtilidadeA vantagem recíproca.O desaparecimento do benefício ou o desacordo sobre as trocas.
PrazerA convivência agradável.A mudança de gostos, interesses e atividades.
VirtudeO caráter e o bem da outra pessoa.A deterioração moral, a quebra de confiança e a perda de uma vida efetivamente compartilhada.

A amizade virtuosa também é útil e agradável?

Sim. Aristóteles não pede que amigos deixem de se ajudar ou de sentir prazer juntos para provar desinteresse. A amizade completa inclui essas dimensões. A diferença é que o vínculo não depende exclusivamente delas.

Dois amigos podem estudar juntos e gostar da conversa. Se um deles atravessa uma fase difícil e já não oferece a mesma leveza ou ajuda prática, a consideração pelo seu bem pode sustentar a relação. O fundamento aparece precisamente quando a convivência deixa de ser vantajosa de maneira imediata.

Isso não autoriza aceitar qualquer comportamento. Querer o bem de alguém pode exigir uma discordância, especialmente quando a pessoa deseja algo que a prejudica ou que envolve injustiça. A amizade não transforma cumplicidade em virtude.

Igualdade, reciprocidade e diferenças

O texto também examina relações desiguais, como as familiares, e pergunta como manter alguma reciprocidade quando as contribuições não são idênticas. Seu vocabulário reflete a sociedade antiga e não deve ser transportado integralmente como regra para relações atuais.

Uma distinção continua útil: reciprocidade não exige que cada gesto seja compensado imediatamente por outro de mesmo valor. Amigos podem oferecer coisas diferentes conforme suas condições. O problema aparece quando apenas uma pessoa reconhece obrigações e a outra trata o vínculo como um recurso disponível.

Por que a pessoa feliz ainda precisa de amigos?

No livro IX, Aristóteles enfrenta a hipótese de que alguém autossuficiente dispensaria amizades. Sua resposta liga a felicidade à atividade. Viver bem envolve exercer capacidades e compartilhar ações que merecem ser escolhidas; amigos ampliam essa experiência.

O outro permite observar condutas, aprender, conversar e agir em conjunto. A amizade não entra apenas para reparar uma falta ou resolver uma emergência. Faz parte de uma vida que já possui bens e encontra valor em compartilhá-los.

Essa discussão se esclarece com o conceito de eudaimonia e com a explicação de hábito e formação do caráter. Para acompanhar a obra inteira, leia o resumo da Ética a Nicômaco; o perfil de Aristóteles apresenta o contexto de sua filosofia.