Bruno Tolentino foi um poeta, tradutor e ensaísta brasileiro cuja obra combinou formas clássicas, ambição filosófica e uma crítica severa a parte da poesia moderna. Nascido no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1940, passou muitos anos fora do Brasil e voltou ao país no início da década de 1990. Morreu em São Paulo, em 27 de junho de 2007.
Formação e primeiros livros
Tolentino publicou Anulação e outros reparos Amazon no começo da década de 1960. Pouco depois deixou o Brasil e viveu na Europa por cerca de três décadas. Há divergências entre as fontes sobre alguns episódios desse período, em parte porque o próprio poeta apresentava sua trajetória de maneira muito pessoal. O que importa para a leitura de sua obra é que a experiência no exterior ampliou seu contato com a poesia de língua inglesa, francesa e italiana e consolidou sua preferência por uma tradição formal exigente.
Durante os anos fora do país, escreveu também em inglês. Ao retornar ao Brasil, já era um poeta maduro, mas pouco conhecido pelo público brasileiro. A publicação de As horas de Katharina Amazon , em 1994, marcou sua reaparição no cenário literário nacional.
As principais obras
As horas de Katharina Amazon é um longo poema narrativo e meditativo sobre conversão, sofrimento e liberdade. A obra deu a Tolentino projeção nacional e recebeu o Prêmio Jabuti. Dois anos depois, A balada do cárcere Amazon reuniu poemas ligados à experiência da prisão e à reflexão sobre culpa, violência e responsabilidade.
Em O mundo como ideia Amazon , publicado em 2002, o poeta desenvolveu uma reflexão extensa sobre a relação entre consciência, realidade e linguagem. O livro também recebeu o Jabuti. Já A imitação do amanhecer Amazon , de 2006, é sua composição mais monumental: um ciclo de 538 sonetos organizado em três movimentos. Na edição de 2007 do prêmio, o autor recebeu uma homenagem póstuma por essa obra.
Além desses títulos, livros como A balada do cárcere Amazon , Os deuses de hoje Amazon e Laudas Amazon ajudam a perceber a variedade de sua produção. Tolentino escreveu sonetos, poemas longos, sátiras e textos de intervenção cultural.
Características da poesia
A poesia de Tolentino se apoia com frequência em formas regulares, sobretudo no soneto, mas não é uma simples imitação de modelos antigos. A métrica e a rima funcionam como instrumentos para organizar conflitos interiores, argumentos e mudanças de voz. Seus poemas tratam de fé, desejo, morte, memória, culpa e liberdade.
Outra característica é o diálogo constante com a tradição europeia. Dante, Shakespeare, Camões e poetas metafísicos ingleses aparecem como referências de composição e pensamento. Essa escolha explica tanto a força de sua obra quanto parte das controvérsias que a cercaram.
A polêmica com o concretismo
Logo depois de voltar ao Brasil, Tolentino publicou uma crítica à tradução de um poema de Hart Crane feita por Augusto de Campos. A discussão ultrapassou o problema da tradução e se transformou em um debate sobre cânone, técnica e poder cultural. Tolentino atacava a posição central ocupada pelo concretismo na crítica brasileira; seus adversários questionavam sua erudição, sua trajetória e seus métodos.
Essa polêmica é relevante para a história literária, mas não deve substituir a leitura dos poemas. Tolentino não se resume ao papel de polemista, assim como sua obra não depende das alianças intelectuais que estabeleceu depois de retornar ao Brasil.
Por onde começar
Para conhecer o poeta, As horas de Katharina Amazon é a melhor entrada: tem unidade narrativa, temas claros e mostra seu domínio da forma. O mundo como ideia Amazon permite avançar para a dimensão filosófica. A imitação do amanhecer Amazon deve ficar para um terceiro momento, porque sua extensão e sua arquitetura exigem leitura lenta.
O perfil do autor mantido pela Literatura Brasileira da UFSC oferece uma cronologia útil. Para estudar sua poética, o artigo “Bruno Tolentino e a poética classicizante”, publicado pelo Centro de Estudos Portugueses da UFMG, é um bom ponto de partida.
