Juarez Machado morreu em 6 de outubro de 2026, aos 85 anos, no interior do Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela Prefeitura de Joinville, sua cidade natal, que decretou três dias de luto oficial. Pintor, desenhista, escultor, cartunista e mímico, ele construiu uma carreira que passou pela imprensa, pela televisão e pelas galerias de arte no Brasil e no exterior.

Parte do público o conheceu pelas apresentações de mímica no Fantástico. Outra parte encontrou seu trabalho em livros de imagens, exposições ou, indiretamente, nas cores de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Essas atividades tinham algo em comum: a capacidade de contar uma história com gestos, objetos e situações que dispensavam uma explicação por escrito.

De Joinville ao Rio de Janeiro

Nascido em Joinville, em 16 de março de 1941, Machado estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba. Em 1964, expôs individualmente na Galeria Cocaco. A formação artística e a participação em salões abriram caminho para uma produção que logo se estenderia a diferentes meios.

No Rio de Janeiro, desenvolveu a carreira de desenhista de humor. O registro do Museu de Arte de Santa Catarina reúne colaborações com publicações como Jornal do Brasil, O Pasquim, O Cruzeiro e Fatos e Fotos. O desenho precisava funcionar no espaço da página, comunicar uma situação e encontrar o momento da surpresa.

Na televisão, seu próprio corpo passou a cumprir parte desse trabalho. Nas apresentações de mímica, a postura, o ritmo e a relação com objetos sustentavam a cena. Machado também trabalhou com cenografia e figurinos. O movimento entre essas atividades ajuda a compreender o interesse pelo gesto que aparece em sua pintura.

Uma pintura feita de cenas

Juarez Machado com pincel e paleta, diante de uma pintura com duas mulheres e de esculturas vermelhas de ciclistas.
Juarez Machado no Instituto Internacional Juarez Machado, em 2018, entre pinturas, desenhos e esculturas. Fotografia: Instituto juarez machado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Imagem integral, sem recorte; título e data da pintura ao fundo não identificados na ficha. Versão redimensionada e convertida para WebP, sob a mesma licença.

A fotografia permite observar alguns elementos desse universo. Na pintura à direita, duas mulheres ocupam um interior com piano, frutas, tecidos e uma abertura para a paisagem. Vermelhos, verdes e ocres distribuem a atenção entre as figuras e o ambiente. A roupa, a posição dos corpos e os objetos sugerem relações que a imagem deixa em aberto.

É possível ler essa composição como uma cena de teatro: há personagens, um espaço cuidadosamente organizado e a sensação de que alguma coisa aconteceu ou está prestes a acontecer. O piano, os tecidos e a paisagem participam dessa sugestão de uma história.

Na mesma fotografia, esculturas vermelhas de ciclistas aparecem em primeiro plano. As linhas desenham corpos e rodas no espaço. O contraste entre essas estruturas vazadas e os interiores cheios de detalhes da pintura mostra como Machado podia trabalhar o movimento com recursos diferentes.

O humor também oferece uma maneira de aproximar essas linguagens. Uma postura exagerada, uma combinação inesperada ou um objeto fora de sua função habitual podem transformar uma cena comum. Na obra de Machado, o interesse pelo cotidiano convive com a liberdade de reorganizá-lo.

Paris e as cores de Amélie Poulain

Machado estabeleceu uma parte importante de sua carreira em Paris. O Museu Ralli, na Espanha, registra a residência em Montmartre e a atividade dividida entre o ateliê parisiense e os espaços de trabalho em Joinville e Copacabana. A circulação internacional manteve vínculos com assuntos brasileiros: sua trajetória inclui as séries Copacabana 100 Anos e Homenagem à Curitiba.

Uma relação especialmente conhecida nasceu do encontro com Jean-Pierre Jeunet, diretor de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, lançado em 2001. Em entrevista ao UOL em 2015, Machado contou que o cineasta visitou sua galeria em Montmartre, comprou uma pintura e se interessou pela paleta. Depois, pediu livros e imagens e fotografou trabalhos para levar à equipe do filme.

Segundo o relato do pintor, duas obras suas também aparecem no quarto de Amélie. A relação, portanto, envolve tanto a presença de pinturas no cenário quanto uma referência para a construção das cores do filme.

A aproximação ajuda a perceber o alcance de uma linguagem visual. Tons, ambientes e personagens criados na pintura podem oferecer caminhos para a fotografia e a direção de arte de um filme. No caso de Machado, esse encontro levou seu universo a espectadores que talvez ainda não conhecessem seu nome.

No trailer de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, observe como as cores se repetem nos ambientes, nas roupas e na iluminação. Ele ajuda a visualizar a paleta do filme comentada neste trecho.

Assistir ao trailer de Amélie Poulain no YouTube ↗

Ida e volta: contar uma história pelas pegadas

Ida e volta Amazon ↗ é uma entrada para seu trabalho com a narrativa visual. Publicado no Brasil em 1976, o livro conta uma história por imagens. O cadastro de literatura infantil e juvenil da Universidade Federal de Santa Catarina registra também outros títulos do artista, como Domingo de Manhã, Emoções e Limite.

Em Ida e volta, a presença do protagonista se revela pelas marcas que deixa. A resenha da UFSC descreve o começo da história já na capa: um chuveiro, uma cortina de banho e pegadas molhadas. A partir delas, o leitor acompanha o caminho de uma pessoa que não aparece diretamente.

Objetos usados, ambientes e rastros permitem reconstruir suas ações. A leitura exige ligar uma imagem à seguinte, perceber o que mudou e imaginar quem passou por ali. A contracapa devolve a história ao banho, fazendo o percurso se fechar sobre o início.

Essa forma de narrar permite uma aproximação com a mímica. Nos dois casos, o gesto e a relação com o espaço dão ao observador elementos para acompanhar a ação. O leitor participa ao completar mentalmente aquilo que a imagem sugere.

Um instituto na cidade natal

Em 2014, foi inaugurado o Instituto Internacional Juarez Machado, em Joinville, no endereço da antiga casa de seus pais. A instituição nasceu do desejo do artista de ampliar o acesso às artes na cidade. Além de preservar e apresentar sua produção, promove exposições de outros artistas, atividades educativas, cursos, palestras e encontros.

Esse trabalho dá uma forma concreta à continuidade de sua obra. Um acervo precisa de conservação, pesquisa e oportunidades de encontro com o público. A formação do olhar depende também de espaços onde as pessoas possam observar, conversar e voltar às imagens.

O percurso de Juarez Machado oferece muitas dessas entradas: o desenho de humor, a cena de mímica, as pegadas de um livro e os personagens de uma pintura. Em cada uma delas, ele explorou o que uma imagem pode contar e o que pode deixar à imaginação de quem a vê.

Ilustração de capa: Olavete, gerada por IA a partir de referência fotográfica do Instituto juarez machado, via Wikimedia Commons. O retrato foi transformado em ilustração, com ambiente imaginado; adaptação sob CC BY-SA 4.0.