Machado de Assis publicou nove romances entre 1872 e 1908, além de contos, crônicas, poesia, teatro e crítica. Dois deles, Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899), viraram a porta de entrada habitual da obra. Quem chega ao fim desses dois e quer continuar encontra um autor bem maior do que eles deixam ver.

Depois deles vêm os outros três romances da maturidade (Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memorial de Aires), os contos reunidos em Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias e Relíquias de casa velha, e uma amostra das crônicas que ele escreveu para os jornais do Rio. São oito livros.

Quincas Borba (1891)

O romance que vem logo depois de Brás Cubas aproveita um personagem que já tinha aparecido nele. Quincas Borba, o filósofo mendigo das Memórias póstumas, é quem inventa ali o Humanitismo, "de Humanitas", uma doutrina que explica tudo como expansão de um mesmo princípio. No livro de 1891 ele morre cedo e deixa a herança a Rubião, um professor de Barbacena, com uma condição: cuidar do cão, que também se chama Quincas Borba.

Antes de morrer, o filósofo explica a doutrina ao herdeiro com uma parábola. Duas tribos famintas disputam um campo de batatas que só alimenta uma delas; se dividirem em paz, morrem as duas de fome; se uma exterminar a outra, sobrevive e atravessa a montanha até outras batatas. A conclusão é a frase que ficou: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

O romance põe essa filosofia à prova na vida de um homem comum. Rubião abre o livro na janela de uma casa em Botafogo, comparando o passado e o presente: "Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista." O dinheiro atrai amigos interessados, entre eles o casal Palha e Sofia, e o resto do livro acompanha o que fazem com ele. O fim é duro e não convém contar aqui; basta dizer que a frase das batatas volta, e volta na boca de quem perdeu. Quem preferir saber o desfecho antes de ler encontra o enredo e o Humanitismo no resumo de Quincas Borba.

É o livro a ler logo depois de Brás Cubas, porque mostra o mesmo humor aplicado a um homem que não tem a frieza do defunto autor para se defender.

Esaú e Jacó (1904)

Esaú e Jacó, o penúltimo romance de Machado, saiu no ano em que morreu Carolina, a mulher com quem estava casado havia quase 35 anos. A advertência que abre o livro conta que, quando o conselheiro Aires morreu, acharam-lhe sete cadernos manuscritos: seis formavam o Memorial, um diário; o sétimo, intitulado "Último", era uma narrativa, e foi só ela que se publicou.

A narrativa é a dos gêmeos Pedro e Paulo, que brigam desde o ventre da mãe. Paulo se declara "capaz de derribar a monarquia com dez homens", e Pedro, "de extirpar o germe republicano com um decreto". Os dois gostam da mesma moça, Flora, que o próprio Aires chama de "uma inexplicável". O pano de fundo é a passagem do Império à República, e Machado trata a mudança de regime pelo lado em que ela chega à vida das pessoas comuns.

O episódio da tabuleta mostra bem isso. Custódio, dono da Confeitaria do Império, tinha mandado pintar uma tabuleta nova pouco antes de novembro de 1889. Com a República, teme que lhe quebrem as vidraças se o nome ficar. Pensa em "Confeitaria da República", mas e se houver nova reviravolta dali a dois meses? Aires propõe "Confeitaria do Governo", um título que "tanto serve para um regime como para outro", e acaba sugerindo o nome do próprio dono, "Confeitaria do Custódio", que não tem "significação política". Em duas páginas, o leitor vê o que uma mudança de regime custa a um confeiteiro.

Quem gostou do narrador de Dom Casmurro vai reconhecer em Aires um parente: um homem que observa, comenta e se mantém à distância.

Memorial de Aires (1908)

O último romance de Machado é o diário que a advertência de Esaú e Jacó tinha anunciado. Aires, diplomata aposentado, volta da Europa e anota o que vê nos anos de 1888 e 1889: a viúva Fidélia, o casal Aguiar, que não teve filhos e cuida dela e de um afilhado como se fossem seus, e as pequenas mudanças de afeto entre essas pessoas.

O livro é quieto. A entrada de 13 de maio de 1888 mostra o tom. Aires escreve "Enfim, lei", conta que estava na rua do Ouvidor, que sentiu grande prazer com a votação do Senado e a sanção da Regente, que recebeu convite para entrar no cortejo e recusou por hábito, por ofício e pela idade. E termina imaginando o que faria se tivesse ido: provavelmente aclamaria como os outros, e depois corrige que meteria "a cara entre os joelhos".

A última página deixa os dois velhos Aguiar sentados à entrada da casa, olhando um para o outro, depois que os moços foram embora. Aires recua sem ser visto e anota: "Consolava-os a saudade de si mesmos." Machado publicou o livro em 1908 e morreu em setembro do mesmo ano.

Papéis avulsos (1882)

Saindo dos romances, os contos mostram Machado trabalhando em escala curta. Papéis avulsos, publicado um ano depois de Brás Cubas, abre com O alienista e reúne doze textos. Na advertência, o autor avisa que o título parece negar ao livro uma unidade, mas que os textos "não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família."

O alienista conta a história de Simão Bacamarte, médico que funda em Itaguaí uma casa de orates, a Casa Verde, e vai internando a cidade aos poucos, conforme muda de teoria sobre o que é loucura. O final, em que ele se tranca sozinho na Casa Verde e se entrega "ao estudo e à cura de si mesmo", vale a leitura inteira da novela; personagens e desfecho estão explicados no resumo de O alienista.

Vale ler o livro inteiro, porque o resto não fica atrás. Em "Teoria do medalhão", um pai ensina ao filho, na noite em que ele faz 21 anos, a arte de não ter ideias próprias e subir na vida assim mesmo. Em "O espelho", com o subtítulo "Esboço de uma nova teoria da alma humana", um homem sustenta que "cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro", e conta como, sozinho no sítio de uma tia, o espelho só lhe devolveu a figura inteira quando ele vestiu a farda de alferes.

Histórias sem data (1884)

O título é explicado numa advertência curta: os contos tratam "de coisas que não são especialmente do dia, ou de um certo dia". A definição serve para o livro inteiro.

"A igreja do Diabo" abre o volume. O Diabo, cansado de viver "dos remanescentes divinos", resolve fundar uma igreja com missa, credo e cânones próprios, e durante um tempo tudo dá certo. Até que os fiéis começam a praticar às escondidas as virtudes antigas. Ao Diabo, que vai se queixar, Deus responde: "As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana."

No mesmo livro está "Cantiga de esponsais". Mestre Romão, regente de orquestra no Rio de 1813, carrega desde 1779 um canto esponsalício começado três dias depois do próprio casamento; a mulher morreu dois anos depois, e a frase musical que faltava não veio. Doente, ele tenta acabar a peça, desiste e rasga o papel. Nesse momento, da janela de uma casa vizinha, uma moça recém-casada cantarola sem saber exatamente a frase que ele procurou durante anos. Mestre Romão ouve, abana a cabeça e morre naquela noite.

Várias histórias (1896)

Na advertência, Machado diz que esta é a quinta coleção de contos que entrega ao público e se defende de antemão de quem achar contos demais com uma frase de Diderot: contar histórias é um modo de passar o tempo. E acrescenta uma observação que serve para qualquer leitor: o problema desse gênero está na qualidade, e não no tamanho; quando contos e romances são igualmente medíocres, os contos levam uma vantagem, a de serem curtos.

O volume abre com "A cartomante" e inclui "Um apólogo", um diálogo entre uma agulha e uma linha sobre quem trabalha de verdade na costura de um vestido de baile. A agulha fura o pano e abre caminho; a linha segue atrás e vai ao baile no vestido da baronesa. O conto fecha com um professor de melancolia que ouve a história e comenta: "Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!" É um bom conto para ler em voz alta em casa, e para conversar depois sobre quem fica com o mérito do trabalho dos outros.

Relíquias de casa velha (1906)

O último volume de contos e textos dispersos que Machado publicou em vida abre com o soneto "A Carolina", escrito para a mulher, morta dois anos antes: "Querida, ao pé do leito derradeiro / Em que descansas dessa longa vida, / Aqui venho e virei, pobre querida, / Trazer-te o coração do companheiro." Na advertência, ele compara a própria vida a uma casa e chama de relíquias os textos inéditos e dispersos que reuniu ali.

O conto que segue o soneto é "Pai contra mãe", e é dos textos de Machado sobre a escravidão que pedem leitura atenta. Começa descrevendo, com uma calma que incomoda, a máscara de folha de flandres e o ferro ao pescoço, e conta a história de Cândido Neves, que vive de capturar escravos fugidos. Pobre e com um filho recém-nascido que está prestes a entregar à roda dos enjeitados, ele captura uma escrava grávida, e ela perde a criança na luta. Cândido Neves volta para casa com o filho salvo pela recompensa e pensa: "Nem todas as crianças vingam." E o conto acaba aí, sem comentário do narrador.

As crônicas de Machado

Durante décadas, Machado escreveu crônicas para jornais do Rio, e uma amostra delas mostra outra face do autor dos romances: mais solta, mais próxima do dia a dia da cidade. A "Crônica dos burros", publicada em "A Semana" em 16 de outubro de 1892, é um bom começo. O cronista conta que, indo num bonde comum pela praia da Lapa, cruzou com um bonde elétrico, o primeiro que via andar, e que, já perto do fim da linha, ouviu os dois burros da parelha conversando sobre o futuro.

Um deles acha que a tração elétrica vai libertá-los. O outro, que conhece a história da espécie, responde que o bonde elétrico "apenas nos fará mudar de senhor": os burros serão vendidos e passarão às carroças. A crônica saiu quatro anos depois da abolição. O texto não fala de escravidão; na nossa leitura, porém, é difícil ouvir esses burros sem pensar no que a liberdade de 1888 significou para muitos libertos.

Por onde seguir

Esta seleção faz parte das listas de leitura do Olavete, e quem leu os dois romances da escola pode seguir a ordem de cima: os três romances da maturidade, depois os contos, depois as crônicas. Quem prefere começar pelo curto pode inverter e abrir com Papéis avulsos. Para situar cada livro na carreira do autor, vale ler sobre a vida e os romances de Machado de Assis. Para leitores mais novos, O alienista e as Memórias póstumas também estão entre os clássicos para adolescentes.

Leitura recomendada

  • Machado de Assis, Quincas Borba, introdução e notas de John Gledson (Penguin-Companhia). São mais de cem notas explicativas e uma introdução extensa de Gledson, que estuda a obra de Machado e traduziu Dom Casmurro para o inglês. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Esaú e Jacó, introdução e notas de Hélio Guimarães (Penguin-Companhia). A introdução lê o romance pelas reflexões do conselheiro Aires sobre a arte de narrar, e Aires é também quem escreve o Memorial. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Memorial de Aires (Penguin-Companhia). O diário cobre 1888 e 1889, e a edição traz introdução, estabelecimento de texto e notas de Marta de Senna e Marcelo Diego. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Papéis avulsos, introdução de John Gledson e notas de Hélio Guimarães (Penguin-Companhia). O texto segue a primeira edição, a única em vida do autor, e recupera a pequena introdução de "Na arca" que Machado cortou ao passar o conto para o livro. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Histórias sem data, organização e apresentação de Hélio de Seixas Guimarães (Todavia). O texto foi estabelecido a partir das edições revistas pelo autor, num projeto da editora que reedita a obra de Machado livro a livro. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Várias histórias, organização e apresentação de Hélio de Seixas Guimarães (Todavia). Mesma coleção e mesmo critério de texto, para a quinta coletânea de contos do autor, a de "A cartomante" e "Um apólogo". Amazon ↗
  • Machado de Assis, Relíquias de casa velha, organização e apresentação de Hélio de Seixas Guimarães (Todavia). Traz o volume inteiro, do soneto "A Carolina" e de "Pai contra mãe" até as duas comédias que o fecham. Amazon ↗
  • Machado de Assis, Crônicas escolhidas, seleção, introdução e comentários de John Gledson (Penguin-Companhia). São cinquenta crônicas que Gledson escolheu nos arquivos da imprensa carioca, concentradas na maturidade do autor, para ler ao lado dos contos e romances. Amazon ↗

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