Olavo de Carvalho estudou e ensinou astrologia antes de se tornar conhecido por seus ensaios filosóficos e políticos. Sua trajetória nesse campo inclui a Escola Júpiter, livros dos anos 1980 e os cursos de astrocaracterologia de 1989 a 1992. Examinar esse período exige distinguir a hipótese que ele propunha, a prática astrológica que criticava e os resultados que chegou a apresentar.
Da Escola Júpiter ao curso de 1989
Os fatos verificáveis são poucos e bem datados. Segundo o astrólogo Antônio Carlos Harres, que escreveu sobre a história da astrologia no Brasil, a Escola Júpiter foi fundada em São Paulo por Olavo, por Mary Lou Simonsen e pelo próprio Harres. Em 1980 saiu pela editora da escola o primeiro livro de Olavo, A imagem do homem na astrologia Amazon . Vieram depois Questões de simbolismo astrológico Amazon (1983), Astros e símbolos Amazon (1985) e Astrologia e religião Amazon (1986), todos por pequenas editoras paulistanas.
Ele também dava cursos. Em 2018, o Acervo Estadão recuperou anúncios publicados no jornal: num deles, de março de 1982, Olavo oferecia um curso de oito meses chamado "Orientação Profissional Segundo a Astrologia". Outros anúncios mostram palestras dele sobre "conhecimentos orientais" e sobre "artes liberais na cristandade medieval".
A documentação desse trabalho inclui cursos e publicações independentes. Na introdução de O caráter como forma pura da personalidade Amazon , registrado como publicação de 1993 no currículo do próprio autor, Olavo informa que reuniu textos distribuídos nos cursos de 1989 a 1992 em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo ele, as gravações transcritas alcançavam quase três mil páginas datilografadas. A introdução agradece a colaboração da Sociedade Brasileira de Astrocaracterologia.
A partir de meados dos anos 1990, os livros mudam de assunto: A nova era e a revolução cultural Amazon (1994), O jardim das aflições Amazon (1995), Aristóteles em nova perspectiva Amazon (1996). É essa fase que o público conhece.
O que era a astrocaracterologia
A palavra é estranha, mas a ideia cabe numa frase. Olavo a definiu como o setor da astrologia que estuda "as relações entre a figura celeste no instante do nascimento de um indivíduo humano e o caráter desse indivíduo".
O termo "caráter" tem aí um sentido técnico. Olavo procurava delimitar um padrão relativamente estável de atenção e organização cognitiva, distinto da personalidade inteira, da hereditariedade e dos hábitos adquiridos. A suposta correspondência com o céu de nascimento se restringiria a esse "astrocaráter". Essa delimitação conceitual faz parte da hipótese do autor; não deve ser tomada como resultado psicológico estabelecido.
Olavo separava a pergunta sobre a existência de influências astrais da pergunta sobre a capacidade da astrologia de conhecê-las. Admitia a primeira como hipótese de investigação e criticava as pretensões diagnósticas da prática corrente. No seu projeto, a comparação se concentraria no caráter tal como ele o definia. Uma eventual influência física geral, porém, não demonstraria por si só uma correspondência entre mapa natal e características individuais.
O modelo que ele dizia seguir era medieval. No mesmo texto, Olavo resume a posição de Santo Tomás de Aquino: um corpo não age sobre o que não é corpo, e por isso os astros não atingem a inteligência e a vontade humanas. Podem, no máximo, influir no corpo e, por ele, nas paixões. Isso está, de fato, na Suma Teológica Amazon (I, q. 115, a. 4) e na Suma contra os Gentios Amazon (III, caps. 84–87).
De onde vieram as 12 camadas
A teoria das doze camadas da personalidade, que os alunos do Curso Online de Filosofia estudaram décadas depois, nasceu dentro desse trabalho.
Na exposição astrocaracterológica, Olavo distingue doze camadas da personalidade e reserva a uma delas, o astrocaráter, a correspondência que pretendia investigar. Afirma que a escolha do número doze veio da observação, e não de uma simetria numerológica com o zodíaco. A apostila As doze camadas da personalidade, de 1993, também relaciona o esquema aos cursos de astrocaracterologia. Essas são declarações sobre a origem de sua teoria, não comprovações independentes dela.
O efeito é curioso: o esquema que limitava a astrologia a uma camada acabou ganhando vida própria como descrição da formação pessoal. Dá para estudar as camadas hoje sem tocar em astrologia, mas convém saber de onde elas vieram.
O horóscopo que ele criticava
Na conferência "Astrologia e Ciência", de 22 de outubro de 1994, Olavo discute os resultados negativos de testes estatísticos de diagnósticos astrológicos. Sua crítica se dirige tanto à pretensão de já possuir uma ciência pronta quanto ao emprego de afirmações vagas, difíceis de submeter a teste. A conferência aprofunda o problema que acompanhava seu projeto: como transformar uma proposta de correspondências em hipóteses efetivamente verificáveis?
Na discussão sobre a astrologia como saber revelado, Olavo critica a pretensão de colocá-la acima do exame racional. Entre os autores que examina estão Charles Carter e René Guénon. Isso ajuda a situar sua leitura crítica de Guénon, desenvolvida no texto sobre Olavo de Carvalho e René Guénon.
O projeto de verificação não autoriza apresentar a astrocaracterologia como ciência comprovada. Na entrevista "Um acerto de contas com a astrologia", de junho de 2000, Olavo relata não ter tido recursos para prosseguir na investigação experimental. A documentação citada aqui descreve um programa de pesquisa e suas limitações; não fornece validação independente de correspondências entre mapas natais e personalidade.
Onde a Igreja põe a linha
Astrologia e religião se cruzam num ponto que não dá para contornar. A Igreja Católica rejeita a astrologia como prática divinatória. O Catecismo da Igreja Católica Amazon , no § 2116, inclui a consulta aos horóscopos e a astrologia entre as formas de adivinhação que devem ser rejeitadas, porque escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e sobre os homens, e contradizem a honra que devemos só a Deus. Santo Tomás chega à mesma conclusão por outro caminho: prever pelos astros os atos que dependem da livre vontade é ilícito, porque esses atos não estão nos astros (Suma Teológica II-II, q. 95, a. 5). E Santo Agostinho conta nas Confissões Amazon (VII, 6) como abandonou a astrologia ao ouvir a história de dois meninos nascidos no mesmo instante, um de família rica e outro de uma escrava, com destinos opostos.
A posição de Santo Tomás é mais fina do que uma condenação em bloco. No mesmo artigo da Suma Amazon , ele admite que usar a observação dos astros para prever efeitos corporais que dependem de causas celestes, como secas e chuvas, não é adivinhação ilícita nem superstição. A ilicitude começa quando se pretende ler nos astros os atos livres e os acontecimentos que acontecem por acaso. Agostinho voltou ao assunto na Cidade de Deus Amazon (V, 1–7) com o caso bíblico de Esaú e Jacó, gêmeos nascidos quase no mesmo instante, que tiveram vidas e temperamentos opostos. Para quem defendia uma correspondência entre o céu do nascimento e o caráter, como fazia a astrocaracterologia, essa era a objeção a enfrentar: se dois corpos nascem sob o mesmo céu e saem diferentes, o céu não basta para explicar o caráter.
Olavo procurava restringir sua hipótese ao caráter, sem atribuir aos astros a determinação das escolhas livres. A distinção conceitual não elimina a necessidade de examinar sua evidência. Também não revoga o juízo da Igreja sobre a adivinhação: estudar historicamente uma proposta e consultar um mapa para orientar decisões são práticas diferentes. A leitura desse período deve manter separadas a descrição do projeto, sua avaliação científica e a orientação religiosa.
Como ler esse período hoje
Esse período pertence à biografia intelectual de Olavo. As fontes permitem acompanhar seus cursos, a formulação de hipóteses e a crítica que dirigia à astrologia praticada em seu tempo. A avaliação de cada tese depende de seus argumentos e evidências.
Os livros dos anos 1980 são difíceis de achar. A porta de entrada mais acessível é O saber e o enigma Amazon , coletânea publicada pela Vide em 2022 que reúne cursos, ensaios e notas dele sobre simbolismo, astrologia e tradições esotéricas. O comentário sobre O saber e o enigma ajuda a separar descrição de doutrina e afirmação sobre o mundo. Para ver como a crítica da ciência moderna aparece em outros autores que Olavo leu, passe por Wolfgang Smith, físico e matemático cujo O enigma quântico Amazon saiu no Brasil pela Vide, em 2011, com prefácio de Olavo à edição brasileira.
Leitura recomendada
- O saber e o enigma: introdução ao estudo dos esoterismos Amazon ↗, de Olavo de Carvalho (Vide Editorial): coletânea de cursos, ensaios e notas para acompanhar esse período de sua obra.
- Saia da camada 4: um guia para entender a teoria das 12 camadas da personalidade de Olavo de Carvalho Amazon ↗, vários autores (Auster): apresentação do esquema das camadas para quem deseja estudá-lo separadamente da astrologia.
Receba novos textos do Olavete: cadastre seu email na seção Carta do Olavete, na página inicial.
