Uma das objeções de Olavo de Carvalho a Immanuel Kant diz respeito à relação entre a teoria do conhecimento e o ato de escrever filosofia. Olavo questiona se a distinção kantiana entre fenômeno e coisa em si é compatível com a possibilidade de um leitor compreender o pensamento de um autor. Para acompanhar a crítica, é preciso distinguir a formulação de Olavo do que Kant entende por conhecimento.
A objeção de Olavo
Em entrevista a Bruno Garschagen, de janeiro de 2008, Olavo apresenta Kant como exemplo de “paralaxe cognitiva”: uma distância entre a construção teórica de um filósofo e a experiência envolvida em sua própria atividade.
O exemplo é a leitura de um livro. Se o leitor só alcança fenômenos, pergunta Olavo, como passaria das marcas impressas ao conteúdo da filosofia? Para ele, Kant pressuporia, ao publicar, uma capacidade de compreensão que sua teoria não conseguiria justificar. A contradição apontada não estaria necessariamente entre duas proposições do sistema, mas entre o sistema e o ato de comunicá-lo.
O método de comparação
No artigo “Prestação de contas”, publicado em O Globo Amazon em 14 de dezembro de 2002, Olavo já expunha a preocupação de comparar uma filosofia com a experiência concreta de quem a formula. Ali emprega a expressão “paralaxe conceitual” e ressalva que esse exame não se reduz à acusação de hipocrisia pessoal.
A pergunta filosófica é se uma doutrina consegue explicar as condições de sua própria formulação. Isso difere de reprovar a conduta privada do autor: uma falha moral não constitui, por si, uma refutação de suas ideias.
Fenômeno e conhecimento em Kant
Na filosofia kantiana, fenômeno não significa simplesmente uma ilusão ou uma superfície sem conteúdo. É o objeto tal como pode ser conhecido sob as condições da experiência humana. A coisa em si designa o que seria considerado independentemente dessas condições. Kant limita o conhecimento teórico às condições da experiência, mas não conclui que o conhecimento cotidiano e científico seja impossível. Essa distinção é desenvolvida no estudo sobre o idealismo transcendental da Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Além disso, Kant não reduz conhecer a receber impressões sensíveis. Na introdução à lógica transcendental da Crítica da razão pura, distingue a sensibilidade, pela qual os objetos nos são dados, do entendimento, pelo qual são pensados. O conhecimento depende da relação entre essas capacidades.
Onde está a divergência
A questão decisiva é se compreender o significado de uma frase exige conhecer uma coisa em si no sentido kantiano. Olavo aproxima as duas questões em seu exemplo; essa aproximação precisa ser demonstrada. Reconhecer letras, compreender conceitos e conhecer algo independentemente das condições humanas de conhecimento não são, de saída, operações equivalentes.
Assim, a entrevista documenta uma objeção de Olavo e o método de crítica que ele pretende empregar. Para avaliá-la como refutação de Kant, é necessário confrontar suas premissas com a teoria kantiana da sensibilidade e do entendimento. A existência de livros compreensíveis, tomada isoladamente, não resolve essa discussão.
