A relação documentada entre Olavo de Carvalho e a obra de Mário Ferreira dos Santos passa pela edição de um livro póstumo, por cursos e por um guia de leitura. Olavo apresentou Mário como um dos grandes filósofos do século XX e contribuiu para a divulgação de seus escritos. Essa atuação editorial pode ser descrita com fontes identificáveis. Medir a influência filosófica de Mário sobre Olavo exige uma comparação mais ampla entre as obras.

Dois autodidatas, uma geração de distância

Mário (1907–1968) nasceu em Tietê (SP), cresceu em Pelotas (RS), formou-se em Direito em Porto Alegre e trabalhou como tradutor antes de se dedicar à filosofia em São Paulo, como autodidata. Fundou as editoras Logos e Matese, pelas quais publicou sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais Amazon , e vendia os livros de porta em porta. Em 1957 publicou Filosofia concreta Amazon , o núcleo do seu sistema.

Olavo (1947–2022) foi jornalista, professor e escritor, sem diploma universitário. Ficou conhecido nos anos 1990 com O imbecil coletivo Amazon e, depois de 2009, com o Curso Online de Filosofia.

O que está documentado

O vínculo mais concreto é editorial. Em 2001, a É Realizações publicou A sabedoria das leis eternas Amazon , obra póstuma de Mário, com "introdução, edição de texto e notas" de Olavo. Na introdução, ele diz que tirou o livro dos inéditos deixados pelo filósofo e que preparou o texto "atendendo a honroso pedido da filha do autor". Essa introdução, intitulada "Guia breve para o estudioso da obra filosófica de Mário Ferreira dos Santos", traz um perfil biográfico, um esquema da estrutura da Enciclopédia Amazon e um relato do trabalho editorial. Foi depois incorporada a O futuro do pensamento brasileiro, na 3ª edição (É Realizações, 2007).

Sua atuação incluiu também aulas e conferências, em datas anteriores e posteriores à edição de 2001. Há transcrições de duas conferências no Rio de Janeiro, em 25 e 26 de julho de 1997, e de um curso transmitido de Richmond, nos Estados Unidos, entre 28 de novembro e 2 de dezembro de 2017. O ensaio "Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro", de 2009, saiu na revista Dicta & Contradicta Amazon e está disponível no site de Olavo. Esses registros mostram a continuidade do trabalho de divulgação.

Uma seleção desse material foi reunida em 2020 no volume de 133 páginas Mário Ferreira dos Santos: guia para o estudo de sua obra Amazon , da Vide Editorial. Segundo a apresentação editorial, o livro reúne textos e aulas para orientar o estudo de Mário. O ensaio de 2009 oferece uma primeira leitura gratuita; o guia organiza uma seleção mais ampla, sem se apresentar como edição completa de tudo o que Olavo escreveu ou ensinou sobre o tema.

O que Olavo dizia de Mário

O tom é de admiração sem reservas, e convém saber com que lente se está lendo.

No ensaio de 2009, Olavo compara Mário a Giambattista Vico e a Leibniz: um gênio universal num ambiente provinciano incapaz de enxergá-lo. Diz que a obra, que à primeira vista parece "um caos inabarcável", revela no exame demorado "um plano de excepcional clareza e integridade". Distingue três fases no desenvolvimento intelectual de Mário e chega a escrever que, na última delas, ele é "o único" filósofo moderno que suporta comparação direta com Platão e Aristóteles. Na sinopse do guia da Vide, o editor resume: Olavo se refere a Mário como "um dos maiores filósofos do século XX, não só do Brasil, mas do mundo".

Olavo também lia o esquecimento de Mário como sintoma do país. O ensaio termina com a expectativa de que, quando passar "a atual fase de degradação intelectual e moral do país", a obra de Mário se torne "o alicerce de uma nova cultura brasileira". A pobreza do nosso debate intelectual é o assunto de por que não dá para debater no Brasil.

O mesmo ensaio explica, com paciência, alguns instrumentos de Mário: a decadialética, que examina um objeto sob dez aspectos (sujeito e objeto, atual e virtual, intensidade e extensidade e assim por diante), e a pentadialética, que o considera como unidade, como parte de um todo, como elemento de uma série, de um sistema e do universo.

O ensaio também ajuda a entender por que a obra demorou a ser lida. Olavo atribui parte do problema às edições do próprio Mário, publicadas por ele e vendidas de porta em porta, que saíam "com tantas omissões, frases truncadas e erros gerais de revisão" que a leitura se tornava "um verdadeiro suplício até para os estudiosos mais interessados". Segundo Olavo, o autor reconhecia o defeito e o explicava pela falta de tempo. Há ainda o retrato do lugar de trabalho: um escritório modesto na Vila Olímpia, em São Paulo, "na verdade uma passagem repleta de livros entre a cozinha e a sala de visitas".

O ensaio conta também como teria nascido Filosofia concreta. Mário estava no 43º ano de vida e fazia uma conferência quando, de repente, pediu desculpas ao auditório e se retirou, dizendo que "tivera uma idéia" e precisava anotá-la. A ideia, escreve Olavo, eram as teses numeradas que formariam o núcleo do livro; a família do filósofo teria testemunhado a cena. Sobre o nome que Mário dava à própria filosofia, "positiva", o ensaio esclarece que o sentido nada tem a ver com Comte: positividade, do verbo "pôr", quer dizer apenas afirmação, e a filosofia positiva busca o que legitimamente se pode afirmar.

Há duas cautelas a tomar. Parte do que Olavo conta são episódios sem documentação independente, como um debate de Mário com Caio Prado Júnior cuja data, escreve ele no ensaio de 2009, "agora me escapa". E os números variam: o texto de apresentação da edição de 2001 fala em 45 volumes da Enciclopédia, o ensaio de 2009 em 52. Quem for citar deve conferir na fonte.

O que aproxima os dois

Os dois desenvolveram seu trabalho filosófico fora de uma carreira universitária. Mário criou editoras para publicar sua obra; Olavo reuniu leitores e alunos em torno de livros e cursos. A crítica de Olavo à recepção acadêmica de Mário é parte importante de seu ensaio de 2009 e deve ser lida como avaliação do próprio autor.

Também partilham a tradição. Mário dialoga constantemente com Aristóteles e com a escolástica; Olavo dedicou a Aristóteles o livro sobre a teoria dos quatro discursos, Aristóteles em nova perspectiva Amazon (1996). Ambos tratavam a filosofia como conhecimento da realidade. E ambos combateram o marxismo: Mário escreveu Análise dialética do marxismo Amazon , e Olavo o enfrentou em quase tudo o que publicou a partir dos anos 1990.

O que separa

A diferença mais visível está no método. Mário quer demonstrar. Filosofia concreta parte de uma tese que não se pode negar ("alguma coisa há") e avança de tese em tese, como uma geometria, com pretensão de validade apodítica, isto é, necessária. Olavo raramente escreve assim. Sua filosofia parte da experiência concreta do indivíduo, da biografia e do exame da própria consciência; numa entrevista de 2000, ele a definiu como "a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa". E se exprime em ensaios, aulas e polêmicas.

As fontes declaradas também precisam ser consideradas. O sistema de Mário dialoga com a tradição pitagórica e platônica, especialmente no estudo do número. Olavo apresenta sua teoria dos quatro discursos como uma leitura de Aristóteles e relaciona as doze camadas da personalidade aos cursos de astrocaracterologia de 1989 a 1992. Essas diferenças ajudam a comparar projetos, mas não demonstram, por si sós, a ausência ou a extensão da influência de Mário sobre Olavo.

E há o temperamento. Mário, segundo o ensaio de 2009, falava às plateias com "modéstia tocante". Olavo foi um polemista, e boa parte da recepção de sua obra se mistura com a política. Ler um não obriga a aceitar o outro.

Qual é, afinal, a dívida

A contribuição editorial de Olavo é documentável: ele preparou uma obra póstuma, escreveu sobre a organização da Enciclopédia e dedicou cursos a Mário. As fontes citadas permitem reconhecer essa atuação. Já uma conclusão sobre dependência ou independência filosófica exigiria acompanhar argumentos e conceitos nas obras dos dois, além de comparar seus estilos e trajetórias.

Por onde começar

Comece pelo guia de Olavo, que é curto e serve de mapa. Depois, siga a ordem proposta no texto sobre os livros de Mário Ferreira dos Santos: Convite à filosofia Amazon , Filosofia e cosmovisão Amazon , Lógica e dialética Amazon , e só então Filosofia concreta. Mário dialoga extensamente com a escolástica, mas seu sistema não é tomismo, e a fase pitagórica pede leitura atenta; quem estuda pela tradição católica faz bem em ter Santo Tomás ao lado.

Leitura recomendada

  • Mário Ferreira dos Santos: guia para o estudo de sua obra Amazon ↗, de Olavo de Carvalho (Vide Editorial, 2020, 133 páginas): seleção de textos e aulas que orienta o estudo da obra de Mário.
  • Convite à filosofia Amazon ↗, de Mário Ferreira dos Santos (É Realizações): o primeiro passo da ordem de leitura sugerida, um livro de introdução à filosofia e à sua história.
  • Filosofia concreta Amazon ↗, de Mário Ferreira dos Santos (Filocalia): o núcleo do sistema, para ler depois dos introdutórios, quando o vocabulário já estiver familiar.

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