Na teoria psicanalítica de Freud, o recalque é o processo pelo qual certas representações ligadas às pulsões são mantidas fora da consciência, embora continuem atuando. A pessoa não decide realizá-lo nem sabe diretamente qual conteúdo está afastando. Essa característica o distingue da escolha consciente de evitar um pensamento desagradável.
Freud emprega o conceito para explicar conflitos entre desejos e outras exigências da vida psíquica. Seus sintomas, sonhos e lapsos podem ser interpretados, nessa teoria, como efeitos de conteúdos que não chegaram à consciência de forma direta. Compreender essa explicação exige separar a definição freudiana dos exemplos e das questões experimentais que ela suscita.
A definição de Freud
O texto de referência é o ensaio "Die Verdrängung", de 1915, um dos chamados escritos de metapsicologia. Ali Freud resume a ideia numa frase: a essência do recalque consiste apenas em rejeitar algo e mantê-lo afastado da consciência (tradução livre).
O significado se desdobra a partir daí. O que é afastado é uma representação, isto é, uma ideia, imagem ou lembrança ligada a um desejo. O motivo é que tornar-se consciente dela causaria desprazer, por vergonha, culpa ou conflito com outros desejos e valores da pessoa. E o afastamento acontece sem que a pessoa saiba que está afastando, o que distingue o recalque de simplesmente evitar um assunto.
Um ano antes, em 1914, ao contar a história do movimento psicanalítico, Freud escreveu que a teoria do recalque é o pilar sobre o qual repousa o edifício da psicanálise. Sem ela, não há inconsciente no sentido freudiano, nem sintoma com sentido, nem interpretação.
Recalque, repressão, Verdrängung
Em português circulam duas palavras para a mesma coisa, e isso confunde. Em alemão, Freud usa Verdrängung Amazon , de drängen (empurrar, pressionar): a ideia é a de empurrar para longe, desalojar. A palavra já circulava na psicologia alemã do século XIX, em Herbart, mas foi Freud quem lhe deu o sentido técnico. Em inglês, a Standard Edition traduz por repression. É a tradução das obras psicológicas completas dirigida por James Strachey e publicada em Londres pela Hogarth Press, que virou referência internacional; a edição brasileira da Imago, traduzida do inglês, chama-se justamente Edição Standard Brasileira Amazon . As escolhas de Strachey foram contestadas. Bruno Bettelheim, em Freud e a alma humana Amazon (1983), criticou a troca do Ich Amazon e do Es Amazon de Freud, palavras comuns do alemão, pelos latinismos ego e id, que dão ao texto um ar mais técnico do que o original tinha.
As edições brasileiras traduzidas do inglês e a tradução direta do alemão feita por Paulo César de Souza (Companhia das Letras) usam "repressão". A tradição francesa, que deu o Vocabulário da psicanálise Amazon de Laplanche e Pontalis, prefere refoulement, e daí vem "recalque", muito usado por psicanalistas brasileiros. No vocabulário de Freud, recalque e repressão são o mesmo conceito, e "recalque" tem a vantagem de não se confundir com repressão política ou policial.
Existe ainda um terceiro sentido, popular. Na gíria brasileira das últimas décadas, "recalque" e "recalcada" viraram sinônimos de inveja ou despeito. O parentesco com Freud se resume à ideia remota de um sentimento que a pessoa não admite.
Como funciona: as duas etapas
No ensaio de 1915, Freud distingue dois momentos. O recalque originário é a recusa inicial de acesso à consciência de uma representação ligada à pulsão. O recalque propriamente dito alcança os conteúdos que se associam a esse núcleo. A descrição é de um mecanismo teórico: não equivale à observação direta de duas etapas conscientes pelas quais uma pessoa saberia ter passado.
O recalque também dura. Exige um gasto contínuo de energia, porque o conteúdo afastado continua pressionando para voltar, e Freud compara a situação a algo que precisa ser vigiado o tempo todo. A porta não fecha sozinha; alguém precisa continuar segurando.
A imagem mais didática está nas Cinco lições de psicanálise Amazon , as conferências que ele deu nos Estados Unidos em 1909. Na segunda lição, ele pede ao público que imagine alguém fazendo barulho no meio da palestra. Alguns ouvintes o põem para fora da sala e ficam de guarda na porta para que ele não volte. O intruso é o desejo recalcado; a expulsão é o recalque; os guardas na porta são a resistência, que o analista encontra quando tenta trazer o conteúdo de volta.
O retorno do recalcado
Na teoria freudiana, os conteúdos recalcados podem continuar ativos e retornar de forma transformada. Freud examina esse retorno na formação de sintomas e em outras manifestações que interpreta como compromissos entre desejo e defesa. Isso não significa que todo recalque produza necessariamente um sintoma observável: no ensaio de 1915, ele distingue destinos diferentes e discute separadamente o recalque e a formação de sintomas.
Essa é a lógica de toda a clínica freudiana: o sintoma tem sentido, e o sentido está ligado a algo que foi afastado.
Três exemplos
O primeiro é do próprio Freud. No capítulo de abertura de Psicopatologia da vida cotidiana Amazon (1901), ele conta que, numa viagem, não conseguiu lembrar o nome do pintor dos afrescos de Orvieto, Signorelli. Vinham-lhe outros nomes, errados. Ao analisar o esquecimento, ligou-o a uma conversa anterior sobre morte e sexualidade e a uma notícia triste que ele preferia não ter em mente.
O segundo está na origem do conceito. Nos casos publicados com Josef Breuer em Estudos sobre a histeria Amazon (1895), Freud observou que sintomas físicos podiam diminuir quando a paciente conseguia recordar e falar de uma lembrança penosa.
Um exemplo hipotético é o de alguém que sente hostilidade por um irmão, mas não a reconhece em si. Esquecimentos repetidos e irritação podem ser interpretados, na leitura freudiana, como manifestações indiretas desse conflito. O exemplo ilustra o raciocínio da teoria; esses comportamentos, isoladamente, não demonstram a existência de um conteúdo recalcado.
Recalque, supressão e outras defesas
Decidir não pensar num assunto agora ("amanhã eu resolvo isso") é um ato consciente. Freud usava outra palavra para ele, Unterdrückung Amazon , que se costuma traduzir por supressão. O recalque acontece sem a decisão da pessoa.
Esquecer onde deixou a chave quase sempre é só distração. Freud nunca disse que todo esquecimento é recalque, embora tenha visto motivo em muitos que pareciam banais.
Em "A negação" (1925), ele descreveu outro mecanismo: o conteúdo chega à consciência, mas precedido de um "não" ("não estou dizendo que é minha mãe..."). Anna Freud, em O ego e os mecanismos de defesa Amazon (1936), organizou depois uma lista de defesas da qual o recalque é apenas uma.
Para situar a psicanálise entre as outras escolas, veja principais abordagens da psicologia e a diferença entre psicologia, psiquiatria, psicoterapia e psicanálise. Carl Jung, que rompeu com Freud, manteve a ideia de conteúdos inconscientes, mas recusou o peso quase exclusivo que ele dava à sexualidade.
As objeções
Karl Popper usou a psicanálise como exemplo de teoria que explica qualquer resultado: se o paciente aceita a interpretação, ela é confirmada; se recusa, a recusa é resistência, e a interpretação também é confirmada. O texto sobre falseabilidade em Popper explica o argumento.
A pesquisa sobre falsas memórias acrescenta outra cautela. Em "The formation of false memories" (1995), Elizabeth Loftus e Jacqueline Pickrell investigaram a possibilidade de induzir lembranças de um episódio inexistente por meio de sugestões. O estudo não refuta diretamente a teoria do recalque. Mostra por que a convicção de lembrar não basta, por si só, para comprovar um acontecimento e por que uma interpretação precisa ser distinguida da evidência histórica.
Outro objeto de pesquisa é a supressão voluntária. No estudo publicado na Nature em 2001, Michael Anderson e Collin Green pediram aos participantes que evitassem deliberadamente recuperar certas palavras associadas; em testes posteriores, a recordação dessas palavras foi menor. O experimento investiga controle consciente da recuperação de memórias. Não constitui, por isso, uma demonstração do recalque inconsciente descrito por Freud.
Esconder-se de si mesmo antes de Freud
O fenômeno de não querer ver a si mesmo era conhecido muito antes de Viena. Santo Agostinho, nas Confissões Amazon (VIII, 7), descreve o momento em que Deus o fez voltar-se para si, tirando-o de trás das próprias costas, onde ele havia se posto para não se olhar. O exame de consciência e a confissão sacramental pressupõem que há em nós coisas que preferimos não nomear, e que nomeá-las diante de Deus é o começo da cura.
O desacordo com Freud está no que se encontra lá dentro. Para ele, o núcleo recalcado é sobretudo pulsional, e a moral aparece como uma das forças que recalcam. Para a fé, o que escondemos de nós mesmos são também pecados reais, pelos quais somos responsáveis, e a consciência moral é, mais que uma censura, a voz que nos chama à verdade. Louis Jugnet estudou essa crítica, tal como a formulou o psiquiatra católico Rudolf Allers, em Rudolf Allers ou l'anti-Freud Amazon (1950). A literatura também ajuda: Dostoiévski é um mestre do autoengano, como mostra o texto sobre culpa, ressentimento e autoengano em Dostoiévski.
Leitura recomendada
- Freud (1914–1916): introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos Amazon ↗ (Companhia das Letras): o volume 12 das Obras completas Amazon , traduzido direto do alemão, traz "A repressão", o ensaio de 1915 em que o conceito está definido.
- Cinco lições de psicanálise Amazon ↗, de Sigmund Freud (Cienbook, 2019, trad. Saulo Krieger): as conferências de 1909, o jeito mais curto de ouvir o próprio Freud explicar o recalque a um público leigo.
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