Você observa mil cisnes brancos. Pode procurar o milésimo primeiro e encontrá-lo branco também. Ainda assim, a frase “todos os cisnes são brancos” continua sujeita a uma surpresa. Basta que exista um cisne negro. Karl Popper usou exemplos desse tipo para explicar o que chamou de falseabilidade: uma hipótese sobre o mundo precisa deixar claro que observação poderia contrariá-la.
Uma hipótese falseável pode estar certa. O termo indica que há um teste possível, com um resultado que a colocaria em dificuldade. Popper desenvolveu essa condição como critério para reconhecer teorias da ciência empírica em A lógica da pesquisa científica Amazon e retomou o assunto em Conjecturas e refutações Amazon .
Qual era a pergunta de Popper?
Popper queria saber como distinguir uma teoria que pode ser examinada pela experiência de uma afirmação que acomoda qualquer observação. Os filósofos chamam esse problema de demarcação. Pense numa explicação que se declara confirmada quando algo acontece e, diante do resultado contrário, também diz que estava certa. Se nenhum acontecimento concebível a contraria, falta um teste capaz de pô-la em risco.
Esse critério delimita a ciência empírica; não mede o valor de toda ideia. Uma questão moral ou metafísica pode ser importante sem formular uma hipótese sujeita a observação. O que Popper exigia de uma teoria empírica era que ela excluísse ao menos alguns resultados possíveis.
Por que os cisnes ajudam a entender?
“Todos os cisnes são brancos” exclui um caso bem definido: um cisne que não seja branco. Por isso, a frase é falseável. Cada cisne branco encontrado combina com ela, mas o número de observações favoráveis não garante uma regra válida para todos os cisnes, inclusive os que ainda não vimos. Um cisne negro genuíno seria um contraexemplo.
Há uma diferença entre a lógica do exemplo e o trabalho de campo. Antes de aceitar o contraexemplo, alguém precisa conferir se a ave é mesmo um cisne, se a cor foi observada corretamente e se o registro é confiável. Em pesquisas menos simples, instrumentos e hipóteses auxiliares também entram nessa avaliação.
O que um teste pode dizer?
O pesquisador começa por especificar qual resultado entraria em conflito com a hipótese. Depois procura uma forma de confrontar essa previsão com a experiência. Um teste exigente dá à hipótese uma chance real de fracassar. Se ela resiste, Popper diz que foi corroborada por aquele teste. Outro teste, em novas condições, ainda pode revelar um problema.
É por isso que a corroboração não funciona como certificado definitivo de verdade. A ciência pode avançar com conjecturas que resistem à crítica por algum tempo e com a revisão das que falham. Procurar apenas exemplos favoráveis deixaria de lado justamente os casos que mais poderiam ensinar algo sobre a hipótese.
E quando aparece um resultado contrário?
Uma previsão raramente depende da teoria sozinha. Para chegar ao resultado esperado, usamos condições iniciais, instrumentos e outras suposições. Se o resultado observado diverge, é preciso descobrir onde está o problema. Pode haver um erro de medição, uma condição esquecida ou uma falha na teoria. Popper distinguia a possibilidade lógica de refutação da decisão, tomada na pesquisa, de aceitar um resultado como refutação.
Essa cautela tem limite. Se toda dificuldade é afastada com uma explicação inventada depois do teste, sem gerar novas previsões que possam falhar, a teoria deixa de se expor à crítica. Uma revisão séria deve permitir novos testes.
Até onde vai a falseabilidade?
O critério diz respeito à testabilidade empírica. Uma teoria falseável pode estar errada. Uma afirmação fora desse campo pode ter interesse moral, filosófico ou artístico. E saber que uma teoria é testável ainda não resolve se seus testes foram bem feitos ou se as evidências disponíveis a sustentam. Filósofos da ciência continuam debatendo se um único critério consegue demarcar todos os casos.
Ao ouvir uma explicação sobre o mundo observável, vale fazer a pergunta de Popper: que descoberta nos faria revê-la? A resposta ajuda a transformar uma convicção em uma hipótese que pode ser examinada.
Livros de Karl Popper
Para acompanhar o argumento do próprio autor, comece por A lógica da pesquisa científica, em que ele desenvolve o critério de falseabilidade. Conjecturas e refutações reúne ensaios sobre o avanço do conhecimento pela crítica. Em Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento, Popper examina a indução e a demarcação em maior detalhe.
