Teoria crítica designa, em sentido histórico, o programa de investigação social formulado por Max Horkheimer nos anos 1930, ligado ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Ele combina explicação da sociedade, avaliação de suas instituições e um propósito de emancipação. A expressão também passou a nomear outras correntes, com métodos e objetos diferentes. Entender o conceito exige distinguir esse uso amplo do programa original de Frankfurt.
O ensaio de 1937
Horkheimer (1895–1973) dirigia desde 1930 o Institut für Sozialforschung, o instituto de ciências sociais ligado à Universidade de Frankfurt. Em 1937, já no exílio americano, publicou na revista do instituto o ensaio "Teoria tradicional e teoria crítica". A Stanford Encyclopedia of Philosophy chama esse texto de referência "praticamente indiscutida" para definir a teoria crítica de Frankfurt.
O ponto de partida é uma pergunta sobre o que é uma teoria. Horkheimer descreve o modelo dominante desde a ciência moderna, que ele remonta a Descartes: um sistema de proposições ligadas entre si, do qual se deduzem previsões que depois se comparam com os fatos. A física é o exemplo acabado. Esse modelo é o que ele chama de teoria tradicional.
Horkheimer aceita esse modelo na física. Sua objeção vale para o estudo da sociedade: transposto para ela, o modelo toma a ordem social existente como um dado natural, do mesmo tipo que a queda dos corpos. O sociólogo mede, classifica e prevê, mas não pergunta de onde vieram as instituições que está medindo, nem a quem servem. E o próprio cientista, diz Horkheimer, também é produto dessa sociedade: seus problemas, suas categorias e até sua divisão do trabalho intelectual têm uma história.
A teoria crítica seria a teoria que inclui essa história no próprio objeto. Ela descreve e, além disso, mostra que a ordem social é obra humana e que, portanto, poderia ser outra. E tem um propósito declarado. Segundo a síntese da SEP, Horkheimer escreve que essa teoria não visa simplesmente ao aumento do saber, mas à "emancipação" das pessoas das relações que as escravizam, e que o teórico forma uma unidade com a classe oprimida.
Um estudo sobre o desemprego, de dois jeitos
Imagine um estudo sobre o desemprego numa cidade industrial. A abordagem tradicional levanta a taxa de desemprego, cruza com escolaridade e idade, e talvez preveja quantas vagas a próxima fábrica vai abrir. O resultado é útil e pode ser verdadeiro.
A abordagem crítica quer saber por que a vida dessas pessoas depende de decisões tomadas por quem não mora ali, que relação de poder isso revela e o que precisaria mudar para que elas tivessem mais domínio sobre a própria vida. O estudo vai da descrição a um juízo sobre a sociedade e daí a uma direção para a ação. A SEP organiza o verbete justamente em torno dessa combinação: a teoria crítica pretende ser ao mesmo tempo explicativa, normativa e prática.
A virada da Dialética do esclarecimento
Horkheimer e Theodor W. Adorno desenvolveram essa discussão em Dialética do esclarecimento Amazon , cuja primeira versão circulou em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial; a edição em livro saiu em Amsterdã em 1947. O texto muda o tom do programa. No prefácio, os autores enunciam a relação entre mito e esclarecimento e procuram explicar como a razão pode participar de novas formas de dominação.
Segundo a interpretação do livro, a razão moderna pode converter-se em instrumento de domínio da natureza e dos seres humanos quando se limita a calcular meios e perde a reflexão sobre os fins. Os autores escreviam no exílio, durante o nazismo, diante também da experiência do stalinismo. A pergunta era como uma civilização tecnicamente avançada podia produzir barbárie.
O capítulo mais lido é o da indústria cultural. Rádio, cinema e revistas são analisados como uma produção em série de entretenimento, que padroniza o gosto e ocupa o tempo livre com mais do mesmo. Quem já sentiu que todos os filmes de uma temporada parecem iguais entende a intuição, mesmo sem aceitar a moldura marxista.
O pessimismo desse livro é maior que o do ensaio de 1937. A esperança numa classe revolucionária quase desaparece. Herbert Marcuse, em O homem unidimensional Amazon (1964), levou adiante a análise de uma sociedade que absorve a própria oposição.
Das gerações de Frankfurt às "teorias críticas" de hoje
Dentro de Frankfurt, Jürgen Habermas, da geração seguinte, reformulou o programa em torno da comunicação: em Teoria do agir comunicativo Amazon (1981), o critério da crítica passa a ser a possibilidade de um entendimento livre de coerção entre os falantes. Depois dele veio Axel Honneth, com a teoria do reconhecimento.
Fora de Frankfurt, a expressão "teoria crítica" passou a abranger abordagens que examinam instituições, desigualdades e relações de poder. O uso do mesmo adjetivo não demonstra uma filiação direta a Horkheimer. É preciso conferir as fontes, os conceitos e o objeto de cada corrente. Dois exemplos ajudam a perceber essa ampliação.
No campo da educação, as teorias críticas do currículo perguntam por que certos conhecimentos são selecionados e como essa escolha se relaciona com a organização social. Em Documentos de identidade Amazon (1999), Tomaz Tadeu da Silva distingue teorias tradicionais, críticas e pós-críticas. Sua classificação reúne autores como Michael Apple, Henry Giroux, Paulo Freire, Bourdieu e Passeron. Essa é uma classificação de abordagens diversas, não a atribuição de uma única resposta a todos esses autores.
No direito norte-americano, a teoria crítica da raça se consolidou nos anos 1980, com autores como Derrick Bell e Kimberlé Crenshaw, em diálogo e disputa com os critical legal studies. Seu objeto é o papel das leis e instituições na produção e manutenção de desigualdades raciais. A apresentação da Columbia Law School identifica essa origem específica. Ela não autoriza tratar a corrente como simples aplicação de uma doutrina única de Frankfurt.
Três coisas que costumam ser confundidas com ela
A Escola de Frankfurt é o grupo de pessoas e a instituição, com sua história de exílio e gerações; a teoria crítica é a doutrina que eles formularam. Habermas faz teoria crítica com conceitos que Horkheimer não usava, e um autor de Frankfurt pode ter escrito coisas que nada têm de teoria crítica.
"Marxismo cultural" é usado de modos muito diferentes no debate público, às vezes como descrição de uma influência intelectual real, às vezes como rótulo que engloba tudo o que o falante desaprova. Vale ler o texto sobre marxismo cultural antes de usar a expressão.
Saul Alinsky, o organizador comunitário americano de Regras para radicais Amazon (1971), costuma aparecer nas mesmas listas, mas não vem dessa tradição filosófica. Ele ensinava táticas de militância; Horkheimer e Adorno escreviam ensaios densos e desconfiavam até dos movimentos estudantis dos anos 1960.
As objeções
Uma questão recorrente diz respeito ao fundamento da crítica: por que considerar uma forma de sociedade melhor do que outra? Horkheimer vincula sua teoria à emancipação humana, mas não supõe que a posição social dos oprimidos garanta automaticamente conhecimento correto. Em "Teoria tradicional e teoria crítica", discute a necessidade de reflexão teórica inclusive sobre os interesses de classe. A objeção pertinente é perguntar se os critérios apresentados justificam seus juízos, em vez de atribuir ao autor a ausência de qualquer critério.
Habermas procurou responder ao problema por outro caminho. Sua ética do discurso propõe examinar a validade das normas a partir da possibilidade de acordo entre os afetados em condições de discussão livre. Pode-se questionar se esse procedimento é suficiente ou se pressupõe bens e deveres que não produz por si mesmo. Essa crítica precisa enfrentar a proposta de Habermas, que difere da formulação de Horkheimer e do diagnóstico de Dialética do esclarecimento.
Para a tradição clássica e católica, a emancipação deve ser avaliada em relação ao bem humano. Reconhecer que uma instituição tem história e pode cometer injustiças não basta para concluir que toda autoridade é opressiva. A autoridade de pais, professores ou governantes pode ser legítima quando serve a bens reais das pessoas. A pergunta dirigida às diferentes teorias é quais bens permitem distinguir uma autoridade justa de uma relação de dominação.
A crítica da razão reduzida ao cálculo e a preocupação com os fins da técnica também permitem aproximações. Bento XVI, no capítulo 6 de Caritas in veritate (2009), discute os limites de uma mentalidade que trata a técnica como autossuficiente. A aproximação não elimina as diferenças de fundamento. Para avaliá-las, é necessário examinar o argumento de cada autor sobre verdade, liberdade e bem humano, sem reduzir toda a tradição crítica a uma mesma tese.
Leitura recomendada
- Teoria crítica I Amazon ↗, de Max Horkheimer (Perspectiva): reúne os ensaios dos anos 1930 em que o programa foi formulado, para ler o autor antes dos comentadores.
- Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin Amazon ↗, de José Guilherme Merquior (É Realizações): uma leitura crítica da escola feita por um liberal brasileiro que a estudou a fundo.
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