Durante a recitação da Ave-Maria em latim, a respiração ficou mais lenta e regular. Essa foi uma das observações de um estudo publicado em 2001 no British Medical Journal. A equipe, liderada por Luciano Bernardi, da Universidade de Pavia, na Itália, investigou como a cadência da oração se relacionava com a respiração e os ritmos cardiovasculares.

O que os pesquisadores compararam

Os 23 participantes eram adultos saudáveis. Os pesquisadores compararam a respiração espontânea com a fala livre, a recitação da Ave-Maria, um mantra de yoga e a respiração controlada. Mediram os sinais respiratórios, os intervalos entre batimentos cardíacos, a pressão arterial e a velocidade do fluxo sanguíneo cerebral.

O artigo recebeu o título Effect of rosary prayer and yoga mantras on autonomic cardiovascular rhythms: comparative study.

Seis respirações por minuto

Tanto com a oração quanto com o mantra, a respiração se aproximou de seis ciclos por minuto. Cada ciclo, com inspiração e expiração, durava cerca de dez segundos.

As oscilações respiratórias e cardiovasculares se sincronizaram. Aumentou também a sensibilidade do barorreflexo, mecanismo que ajusta os batimentos às mudanças de pressão arterial. Como as duas recitações produziram efeitos semelhantes, o resultado aponta para a importância do ritmo da respiração.

Como a respiração participa desse processo

O intervalo entre dois batimentos varia mesmo em repouso. É o que se chama de variabilidade da frequência cardíaca. Entre os fatores relacionados a essa variação estão a respiração e a ação do sistema nervoso autônomo, que participa da regulação involuntária do organismo.

Em 2018, Andrea Zaccaro e colaboradores publicaram uma revisão sistemática de 15 estudos sobre respiração lenta em pessoas saudáveis. Encontraram alterações na variabilidade cardíaca e associações com medidas de relaxamento e bem-estar. Os métodos variavam entre os estudos, e os autores apontaram a necessidade de pesquisas que avaliassem melhor os efeitos duradouros.

A revisão dá contexto ao estudo de Pavia, mas trata de técnicas respiratórias. Seus resultados não demonstram, por si só, os efeitos de rezar o terço.

Os limites do estudo

A pesquisa de Pavia mediu mudanças durante o experimento, com um pequeno grupo de pessoas saudáveis. Esses dados não permitem concluir que a oração previna infartos, trate hipertensão ou prolongue a vida. Seria preciso acompanhar os resultados clínicos ao longo do tempo e fazer comparações adequadas para investigar essas questões.

A equipe usou a Ave-Maria em latim. O resultado não garante a mesma resposta em outros idiomas ou velocidades, nem em toda forma de rezar. O ritmo de seis ciclos por minuto descreve aquela situação experimental; a pesquisa não estabelece um tempo obrigatório para a oração.

A contemplação no terço

Na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, de 16 de outubro de 2002, João Paulo II apresenta o rosário como oração contemplativa centrada nos mistérios da vida de Cristo. As Ave-Marias acompanham essa meditação. Retomando uma orientação de Paulo VI, ele recomenda uma recitação tranquila, que dê tempo a quem reza para contemplar esses mistérios.

O que se contempla e a intenção de quem reza fazem parte do sentido religioso do terço. As medidas cardiovasculares do estudo alcançam apenas uma parte dessa experiência.