Um cânone pessoal de leitura é um núcleo de livros escolhidos para reler e estudar ao longo da vida. Para montá-lo, comece pelos títulos aos quais já voltou, anote o que cada um ainda lhe ensina e experimente reler alguns deles antes de ampliar a lista.

Esse núcleo pode reunir romances, poemas, filosofia e outros livros que continuem a oferecer descobertas. Ele se forma pelo uso e pela releitura, enquanto novas leituras trazem candidatos e perguntas. As recomendações deste guia combinam ideias de Adler e Van Doren, Sêneca e Sertillanges com um procedimento editorial para fazer a primeira seleção.

O que distingue um cânone pessoal

A palavra cânone pode designar conjuntos diferentes, conforme o contexto. Por isso é útil distinguir uma lista pessoal de releitura, o cânone das Escrituras e a seleção de obras reconhecidas numa tradição literária.

A Igreja usa a palavra num sentido preciso. O Catecismo chama de "Cânon das Escrituras" a lista integral dos livros sagrados, e diz que foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais escritos entravam nela.

Já o cânone ocidental, aquele das listas de grandes obras, é uma conversa entre críticos, professores e editores sobre quais livros uma cultura deve guardar. Ele ajuda a orientar; qual desses livros vai trabalhar em você, só a sua leitura mostra.

O cânone pessoal ocupa outro lugar. Sua seleção depende da experiência de releitura, do confronto com outros leitores e de critérios que você consiga explicar. Gostar de um livro pode iniciar a escolha; descobrir nele algo que sustente novas leituras é uma razão para mantê-lo.

O critério: livros que crescem com você

Um critério útil para isso está em Como ler livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren, num capítulo sobre a leitura e o crescimento da mente. Eles descrevem uma pirâmide.

Na base da pirâmide estão os livros que, segundo os autores, servem sobretudo à informação ou à distração. Acima ficam os que recompensam uma leitura analítica cuidadosa. No topo, os poucos que continuam a ampliar a compreensão mesmo depois de bem lidos: na volta, parecem ter crescido com o leitor.

O livro permanece o mesmo; quem mudou foi quem o lê. Novas experiências e perguntas tornam visíveis relações que antes passaram despercebidas. Para Adler e Van Doren, essa capacidade de sustentar releituras é um critério decisivo. Eles também reconhecem diferenças entre leitores e evitam impor a cada pessoa o mesmo grupo de livros.

Aí está a definição prática de um cânone pessoal: os livros do topo da pirâmide que, de fato, crescem com você. A seleção pode ser curta; Sertillanges, em outro contexto, aconselha conhecer a fundo três ou quatro autores na cultura geral, outros tantos na especialidade e um número semelhante para cada problema.

Adler e Van Doren propõem ainda imaginar uma longa permanência numa ilha deserta com apenas dez livros. O exercício ajuda a perceber de quais leituras cada pessoa espera obter companhia e compreensão. Para a formação intelectual, podemos transformar essa hipótese numa pergunta prática: a quais livros vale a pena voltar?

Ler pouco e voltar aos mesmos livros

A ideia é bem mais velha que Adler e Van Doren. Na segunda das cartas a Lucílio, Sêneca adverte o amigo contra ler muitos autores e livros de todo tipo. "Quem está em toda parte não está em parte alguma", escreve, e compara o leitor que passa por tudo às pressas ao viajante que tem muitas hospedagens e nenhuma amizade. A multidão de livros dispersa, diz ele; como não dá para ler tudo o que se tem, basta ter o que se pode ler. Ao amigo que diz querer abrir ora este livro, ora aquele, ele responde que provar muitas coisas é próprio de um estômago enjoado, e que alimentos variados e desencontrados contaminam o organismo sem nutri-lo. E dá a regra: leia os autores já aprovados e, se um dia quiser desviar para outros, volte aos primeiros. O conselho final é um hábito de uma linha: depois de percorrer muitas coisas, escolha uma só para digerir naquele dia. Sêneca diz que faz o mesmo, e a carta fecha com a frase que ele colheu naquele dia, em Epicuro, seguida de um comentário sobre ela.

Quase dezenove séculos depois, o dominicano A.-D. Sertillanges chegou à mesma ordem em A vida intelectual. No capítulo VII, "A preparação do trabalho", a parte sobre a leitura abre com uma breve introdução e logo dá a primeira regra: leia pouco. Ele mesmo explica o que quer dizer. A formação de um espírito largo exige muitas leituras, e ele não aconselha reduzi-las de forma arbitrária. "Muito" e "pouco" só se opõem no mesmo terreno: é preciso ler muito em termos absolutos, porque a tarefa é vasta, e pouco em relação ao dilúvio de escritos que entope as bibliotecas e as almas. O que ele condena é a paixão de ler, o excesso de alimento espiritual, a preguiça disfarçada que prefere a convivência fácil com os livros ao esforço.

A comparação que ele usa é doméstica. Deve-se ir aos livros como a dona de casa vai à feira, com o cardápio do dia já decidido.

Sertillanges dá também uma medida concreta. Para os grandes temas da doutrina ele recomenda santo Tomás, avisando que não dá para se fechar nele; fora daí, três ou quatro autores para conhecer a fundo na cultura geral, três ou quatro na especialidade e um número parecido para cada problema que surgir. Outras fontes servem para se informar; a formação vem desses poucos. Essa distinção entre informar-se e formar-se ajuda muito na montagem de um cânone: ela separa os livros que entram no núcleo dos que ficam na consulta.

No mesmo capítulo, Sertillanges distingue quatro espécies de leitura: a de fundo, para se formar e "tornar-se alguém"; a de ocasião, feita em vista de uma tarefa; a de treino ou edificação, que anima para o trabalho e para o bem; e a de descanso. Cada uma pede uma atitude: docilidade, domínio, ardor e liberdade. Na prática, um cânone pessoal é em grande parte a lista das suas leituras de fundo, e por isso pede docilidade, a de quem ainda está aprendendo com o autor. Isso não exclui as outras. Um livro de edificação que você relê há anos para recomeçar o trabalho também pode merecer lugar no núcleo.

Ele acrescenta que escolher significa duas coisas: escolher os livros e escolher dentro dos livros, onde nem tudo tem o mesmo valor. No cânone isso também acontece. Às vezes o que fica de um livro é um capítulo, um diálogo, um punhado de páginas que você volta a abrir, e a lista pode registrar só essa parte.

Como montar o seu cânone, passo a passo

Com esses critérios, a montagem fica simples de descrever e lenta de fazer. O caminho abaixo tem uma ordem, mas é tudo provisório nos primeiros anos.

Comece pelos livros que você não consegue largar. Antes de olhar listas alheias, escreva os livros que você releu por vontade própria, ou que volta a citar, a discutir, a abrir para conferir uma passagem. É a "suspeita" de que falam Adler e Van Doren: a sensação de que ficou algo para trás. Pode ser um romance, um tratado, um livro de orações. Uma lista curta já serve para começar; se você ainda não releu nenhum livro, escolha um de que gostou e faça essa experiência.

Faça a pergunta da ilha. Escolha dez livros para uma vida isolada. A lista vai sair desequilibrada, e o desequilíbrio é informativo: mostra que áreas da vida você espera que os livros sustentem e quais deixou sem nada.

Separe formação de informação. Para cada livro que aparecer, pergunte se você volta a ele para ser formado ou só para saber algo. Um bom manual de história pode ser excelente e ainda assim ficar na consulta. Uma tragédia grega, um diálogo de Platão, as Confissões de santo Agostinho ou um romance que reorganizou sua visão da família podem ir para o núcleo.

Use listas alheias como cardápio, sem transformá-las em meta. O apêndice de Adler e Van Doren lista obras que, pela experiência, tiveram esse valor para muitos leitores. Uma seleção comentada de clássicos pode ajudar a descobrir candidatos. Um livro entra no seu cânone depois de lido com atenção e de ter passado pela primeira releitura.

Leia devagar os candidatos. Livro de cânone não se lê para riscar da lista. A leitura lenta, com pausa, anotação e retorno a trechos difíceis, é o que permite perceber se o livro tem mais do que você conseguiu tirar da primeira leitura.

Reveja a lista uma vez por ano. Alguns livros vão sair, porque na releitura pareceram menores do que na memória. Adler e Van Doren descrevem isso: o livro do meio da pirâmide decepciona na volta, porque o leitor cresceu e ele não. Outros vão subir. A lista pode permanecer estável; o que importa é que suas razões para mantê-la continuem apoiadas na leitura.

Anote por que cada livro está ali. Ao lado de cada título, uma linha: o que esse livro faz por você que nenhum outro faz. Se a justificativa ainda estiver vaga, volte a uma passagem concreta. Dois livros podem cumprir funções próximas e merecer lugar por razões diferentes. A anotação também ajuda na revisão anual, porque mostra se o motivo continua de pé.

Dê aos livros um lugar físico. Os livros do núcleo merecem uma prateleira à mão, separada do resto. Quem está pensando em como montar uma biblioteca em casa pode começar por ela: é o pedaço da biblioteca que você usa de verdade.

Os riscos de uma lista só sua

Um cânone pessoal tem um perigo evidente: virar espelho. Se o único critério é o que me agrada na releitura, a lista tende a confirmar o que eu já pensava e a excluir o livro que me contraria. Dá para ler nos próprios autores uma resposta a isso. O próprio Sêneca, na carta que pede fidelidade aos mesmos livros, conta que costuma passar ao acampamento alheio, "não como desertor, mas como explorador", e a frase que ele colhe naquele dia é de Epicuro, mestre de outra escola.

Sertillanges pede conselheiros dedicados e competentes, leitura de primeira mão e convivência com a elite dos pensadores, e diz que o livro deve ser tratado como um irmão mais velho: abordado sem orgulho, ouvido sem prevenção, com os defeitos suportados, sem que o leitor abra mão da liberdade de defender a própria alma. Adler e Van Doren, por sua vez, evitam impor livros, mas publicam a lista daqueles que a experiência mostrou capazes de crescer com muitos leitores. As duas atitudes se completam: a escolha é sua, feita diante de uma tradição.

Para o leitor católico há uma distinção adicional. As Escrituras pertencem a outro cânone, recebido da Igreja. O guia para ler a Bíblia na formação intelectual desenvolve essa distinção. A constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, diz que a Igreja as considera, "juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé". Na nossa leitura, o cânone pessoal fica abaixo desse e se organiza em torno dele.

Com esses cuidados, o primeiro passo cabe numa folha de papel. Leia a parte sobre a leitura no capítulo VII de A vida intelectual e o capítulo sobre a leitura e o crescimento da mente em Como ler livros. Depois escreva os livros relidos por vontade própria e, ao lado de cada um, a linha que diz o que ele faz por você. Essa folha é a primeira versão do seu cânone, para revisar a cada releitura.

Leitura recomendada

  • A vida intelectual Amazon ↗, de A.-D. Sertillanges. É daqui que vêm a regra "leia pouco", a medida dos três ou quatro autores e as quatro espécies de leitura; o livro trata do método e da disciplina do trabalho intelectual, pensado também para quem tem só duas horas por dia.
  • Como ler livros Amazon ↗, de Mortimer Adler e Charles Van Doren. Os autores mostram por que poucos livros aguentam a releitura e ensinam a ler com a atenção que um livro desses pede.