Humanismo pode nomear um programa de formação pelos clássicos, uma concepção filosófica da dignidade humana ou uma corrente da psicologia. Na história da literatura portuguesa, designa ainda um período específico. Esses usos se relacionam, mas não são intercambiáveis.

O sentido histórico se refere aos estudos humanísticos do Renascimento. Os usos posteriores incluem tanto propostas cristãs quanto concepções seculares. Para entender um autor que se apresenta como humanista, é preciso identificar qual desses sentidos está em jogo.

O humanismo do Renascimento

O primeiro sentido, e o mais preciso, é histórico. Nas universidades italianas dos séculos XIV e XV, chamava-se umanista o professor dos studia humanitatis: gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral, estudadas nos autores latinos e, cada vez mais, nos gregos. O historiador Paul Oskar Kristeller mostrou que isso era antes de tudo um programa de educação, compatível com correntes muito diferentes de filosofia.

A expressão vinha de Cícero, que chamava de humanitas a cultura que torna alguém mais plenamente humano. Os humanistas acreditavam que ler bem Virgílio, Cícero e Sêneca formava o estilo e também o caráter. Francesco Petrarca (1304–1374) é o nome que costuma abrir a lista. Ele caçava manuscritos esquecidos em mosteiros, escrevia cartas aos autores antigos como se fossem amigos e, numa carta famosa (Familiares Amazon IV, 1), conta que subiu o Monte Ventoso, abriu as Confissões Amazon de Santo Agostinho ao acaso no topo e leu que os homens admiram as montanhas e se esquecem de si mesmos.

O episódio mostra algo que se perde nos livros didáticos: os primeiros humanistas eram, em sua grande maioria, cristãos. Petrarca, Coluccio Salutati, Leonardo Bruni, Marsílio Ficino, Tomás Morus e Erasmo não queriam substituir Deus pelo homem. Queriam voltar às fontes, tanto às da Antiguidade quanto às da Escritura e dos Padres da Igreja. O lema era ad fontes.

Pico e a dignidade do homem

Em 1486, um jovem de 23 anos chamado Giovanni Pico della Mirandola escreveu um discurso para abrir um debate público em Roma sobre 900 teses. O debate nunca aconteceu (algumas teses foram condenadas pelo papa), mas o discurso ficou conhecido depois como Discurso sobre a dignidade do homem Amazon .

Nele, Pico imagina Deus falando a Adão: a todas as outras criaturas foi dada uma natureza definida; a você não dei lugar fixo, nem forma própria, para que você mesmo, como escultor de si, se modele na forma que preferir. Você pode descer até os animais ou subir até os anjos.

A passagem costuma ser citada como a certidão de nascimento do homem moderno que se cria a si mesmo. A leitura é apressada. Para Pico, a liberdade humana é um dom de Deus, e o discurso inteiro é um convite a usar essa liberdade para subir: pela filosofia moral, pela contemplação, até a união com Deus. O que é verdade é que a frase, arrancada do contexto, pôde depois ser usada por gente que já não acreditava em quem a pronunciava.

Erasmo e o humanismo cristão

Erasmo de Roterdã (c. 1466–1536) é um dos principais representantes do humanismo cristão. Preparou uma edição do Novo Testamento em grego (1516), editou os Padres da Igreja e escreveu o Elogio da Loucura Amazon em 1509. A obra, dedicada a Tomás Morus, foi publicada em 1511.

No livro, a própria Loucura sobe à tribuna e faz seu elogio. É uma sátira: Erasmo ri dos teólogos que discutem minúcias inúteis, dos monges que confundem religião com cerimônia, dos príncipes vaidosos. Mas no final o tom muda. A Loucura fala da loucura da cruz, a de São Paulo, e da alegria dos que amam a Deus a ponto de parecer insensatos ao mundo. A crítica de Erasmo era feita de dentro da fé, para purificá-la.

Ele morreu católico, recusando-se a seguir Lutero, com quem polemizou sobre o livre-arbítrio. O caso de Erasmo mostra que, no século XVI, humanismo e cristianismo não eram dois lados de uma briga.

O Humanismo na literatura portuguesa

Na história da literatura portuguesa, os manuais convencionaram chamar de Humanismo a fase de transição entre o Trovadorismo medieval e o Classicismo, que vai de 1418 a 1527. A primeira data marca a nomeação de Fernão Lopes como guardador das escrituras da Torre do Tombo (alguns manuais preferem 1434, quando ele se torna cronista-mor); a segunda, a volta de Sá de Miranda da Itália, trazendo a medida nova do soneto.

Os nomes do período são três:

  • Fernão Lopes, cronista dos reis, que escreve a história com olho para o povo e para o detalhe concreto;
  • a poesia palaciana, reunida no Cancioneiro Geral Amazon de Garcia de Resende (1516);
  • Gil Vicente, o fundador do teatro português, autor do Auto da Barca do Inferno Amazon (1517), em que a crítica moral aos vícios de cada classe é feita do ponto de vista cristão do juízo final.

O nome "Humanismo" aqui indica o mesmo movimento geral: o homem e a sociedade passam a ocupar mais espaço na literatura, sem que o horizonte religioso desapareça. Gil Vicente é o melhor exemplo.

O humanismo secular

A palavra "humanismo", como substantivo, é bem mais nova do que o movimento. Ela foi cunhada em alemão (Humanismus Amazon ) pelo educador Friedrich Immanuel Niethammer em 1808, para defender o ensino dos clássicos contra uma pedagogia apenas utilitária. Só depois os historiadores aplicaram o termo para trás, aos humanistas do Renascimento.

Nos séculos XIX e XX, o termo passou a nomear também projetos de pensamento que dispensavam uma fundamentação religiosa. Feuerbach interpretou Deus como projeção da essência humana; Comte propôs uma religião da Humanidade. O Humanist Manifesto Amazon I (1933) defendeu um humanismo religioso naturalista. Sartre, na conferência O existencialismo é um humanismo Amazon , de 1945, publicada em 1946, sustentou que não há uma natureza humana concebida por Deus e que cada pessoa se define por seus atos.

Para Sartre, a ausência de valores dados de antemão torna a escolha uma responsabilidade: ao agir, cada pessoa propõe uma imagem do que considera que um ser humano deve ser. Essa posição difere do fundamento religioso de Pico. Não equivale, porém, a uma licença para agir por capricho nem a uma proposta pedagógica para que crianças inventem valores sem orientação.

Maritain e o humanismo integral

O filósofo católico Jacques Maritain respondeu a essa virada em Humanismo Integral Amazon (1936). A tese do livro cabe numa distinção: há um humanismo antropocêntrico, que faz do homem o centro e a medida de tudo, e um humanismo teocêntrico, que reconhece Deus como centro do homem.

Para Maritain, o primeiro acaba destruindo aquilo que queria exaltar. Se o homem é só o que faz de si, ele fica sem defesa contra quem tem mais poder para fazê-lo à força. O segundo é chamado de "integral" porque não deixa nada de fora: nem a dignidade da pessoa, nem a vida social, nem a sua abertura a Deus. É o humanismo que, na sua leitura, já estava em Santo Tomás de Aquino e em Dante, para quem a grandeza humana se mede pela altura a que o homem pode subir.

Por isso um católico pode se dizer humanista no sentido de Erasmo, Morus e Maritain, um humanismo que olha a dignidade do homem a partir de Deus. No sentido secular, que exclui Deus, não pode.

O livro também tem propostas políticas, sobre uma "nova cristandade" pluralista, que foram e continuam sendo discutidas entre católicos. A distinção central, porém, é o que mais serve a quem quer entender o termo.

Humanismo na psicologia

Há ainda um sentido técnico. Nos anos 1950 e 1960, Abraham Maslow e Carl Rogers lideraram o que se chamou de psicologia humanista, uma "terceira força" diante da psicanálise e do behaviorismo. A ideia era estudar a pessoa inteira, com suas escolhas, seus valores e sua tendência a crescer, em vez de reduzi-la a impulsos inconscientes ou a respostas condicionadas.

Rogers desenvolveu a terapia centrada na pessoa, baseada em empatia, aceitação incondicional e autenticidade do terapeuta (Tornar-se Pessoa Amazon , 1961). Maslow ficou conhecido pela hierarquia das necessidades e pelo conceito de autorrealização (Motivation and Personality Amazon , 1954). A partir de uma perspectiva clássica e cristã, cabe perguntar por quais bens essa realização deve ser orientada. Essa é uma questão filosófica de avaliação da corrente, que precisa ser distinguida da descrição de seus conceitos psicológicos.

O que Lewis temia

Em A Abolição do Homem Amazon , Lewis critica a rejeição de valores objetivos e o projeto de moldar as gerações seguintes segundo as preferências de seus planejadores. Sua defesa do Tao não se apresenta como prova do teísmo: ao final do capítulo 2, ele delimita expressamente o argumento. O problema examinado é o critério moral que permite julgar quem pretende formar os outros.

Há uma aproximação entre os dois autores na defesa de critérios para julgar a formação humana. Seus argumentos têm, porém, alcances diferentes: Maritain fundamenta seu humanismo em Deus; Lewis defende, nesse livro, a necessidade de valores objetivos.

Na educação, o sentido renascentista do humanismo chama atenção para a formação pelo estudo da linguagem, da história e das obras clássicas. A discussão filosófica posterior pergunta também de onde vêm os valores que orientam essa formação. Separar essas perguntas ajuda a compreender por que autores diferentes usam a mesma palavra. O texto sobre o abandono do ensino clássico desenvolve a questão do currículo.

Fontes

  • P. O. Kristeller, Renaissance Thought Amazon (1961).
  • Petrarca, Familiares IV, 1.
  • Pico della Mirandola, Discurso sobre a dignidade do homem (1486).
  • Erasmo, Elogio da Loucura (redigido em 1509; publicado em 1511). KU Leuven Libraries, apresentação da obra.
  • F. I. Niethammer (1808).
  • Jacques Maritain, Humanismo Integral (1936).
  • Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo (conferência de 1945; publicação em 1946).
  • Humanist Manifesto I Amazon (1933).
  • C. S. Lewis, A Abolição do Homem (1943), caps. 2–3 e apêndice.
  • Carl Rogers, Tornar-se Pessoa (1961); A. Maslow, Motivation and Personality (1954).
  • Arquivo Nacional Torre do Tombo, "Fernão Lopes, Guardador das Escrituras do Tombo".

Leitura recomendada

  • Elogio da Loucura Amazon ↗, de Erasmo (Edipro).
  • A Abolição do Homem Amazon ↗, de C. S. Lewis.
  • Humanismo Integral Amazon ↗, de Jacques Maritain (Cultor de Livros)

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