Quem começa a ler Olavo de Carvalho costuma esbarrar em duas informações que parecem não caber na mesma biografia: o filósofo que defendia a Igreja Católica contra seus detratores e o homem que, nos anos 1980, pertenceu a uma confraria esotérica de origem islâmica. Adversários dele usaram a segunda para pôr em dúvida a primeira, e o próprio Olavo voltou ao assunto mais de uma vez.
Olavo de Carvalho contou ter sido criado na Igreja Católica. Em 1986, segundo seu próprio relato, ingressou na tariqa de Frithjof Schuon, que descreveu como multiconfessional. Mais tarde, os obituários registraram sua reaproximação da Igreja e a prática da missa. Esse percurso exige distinguir o que ele declarou, o que outros autores relataram e as controvérsias sobre suas posições religiosas.
Da infância em Campinas ao estudo da filosofia
Olavo Luiz Pimentel de Carvalho nasceu em Campinas, em 29 de abril de 1947, segundo os dados biográficos de olavodecarvalho.org, o site oficial. A BBC News Brasil, no obituário publicado em janeiro de 2022, registra que ele contou ter sido criado na Igreja Católica e que, depois, se reaproximou dela.
Entre a infância e esse retorno, três pontos importam para a questão religiosa. No fim dos anos 1970, ele trabalhou como astrólogo em São Paulo, segundo a BBC. Nos anos 1980, aproximou-se da chamada escola tradicionalista, de René Guénon e Frithjof Schuon. E, segundo a Gazeta do Povo, frequentou durante três anos o grupo de estudos filosóficos que o padre jesuíta Stanislavs Ladusãns coordenava na PUC do Rio de Janeiro.
A tariqa de Schuon, contada por ele mesmo
Um ponto explorado pelos críticos é a passagem pela tariqa, que é o nome de uma confraria sufi, ou seja, uma organização esotérica ligada ao islã. Olavo escreveu sobre isso várias vezes. O texto mais direto é "A vingança do Caraio", de 17 de junho de 2018, publicado em olavodecarvalho.org: "Todos sabem que pertenci à tariqa (organização esotérica islâmica) de Frithjof Schuon (Sheikh Issa Nureddin), sediada em Lausanne, Suíça, e depois em Bloomington, Indiana."
No mesmo texto ele dá a data de entrada, 1986, e afirma que a confraria de Schuon, naquela época, era multiconfessional e aceitava membros de religiões diferentes sem exigir conversão ao islã. Cita como intermediário de sua entrada o médico Rama P. Coomaraswamy, apresentado por ele como teólogo católico, a quem chegara por recomendação do escritor budista Marco Pallis. Compara sua participação ao interesse de Thomas Merton pelo budismo e de Raimundo Panikkar pelo hinduísmo. Essas comparações fazem parte da explicação de Olavo para sua própria experiência. Segundo esse relato, Schuon só passou a exigir a conversão ao islã cerca de dez anos depois da saída de Olavo, que não informa ali a data exata em que deixou o grupo.
Essa é a versão dele, contada em primeira pessoa. O motivo do texto, diz o próprio Olavo, era responder a detratores que tentavam convencer o público de que ele tinha se convertido ao islã e depois o abandonado. Segundo ele, essa versão o exporia ao risco de morte que pesa sobre quem é visto como apóstata do islã.
No relato de 2018, Olavo reconheceu a filiação à tariqa e negou que ela tivesse envolvido sua conversão ao islã. Essa declaração documenta a posição que ele assumiu naquele texto; não permite reconstituir, sozinha, cada etapa de sua vida religiosa nem encerrar a controvérsia sobre a confraria.
As críticas a Guénon e Schuon
A ruptura com o tradicionalismo não ficou só na saída da tariqa. Em "Influências discretas", artigo no Jornal do Brasil de 8 de maio de 2008, Olavo descreve o projeto de Schuon de islamizar a Europa e trata a criação da tariqa como parte de um movimento de longo alcance, conduzido com discrição. No mesmo artigo, ele resume o diagnóstico que Guénon fez na década de 1920: à civilização ocidental restariam três caminhos, a barbárie, a restauração da Igreja Católica ou a islamização. E acrescenta, já em nome próprio: "O fiasco do Concílio Vaticano II, cujas aparências os papas em vão tentam ainda salvar, veio a provar que seu diagnóstico, em linhas gerais, estava certo."
Anos depois, ao publicar em seu site um capítulo do livro inacabado A Marcha dos Abismos, redigido em 2017, ele o apresentou como prova da "insuperável distância crítica que me separa de todo 'perenialismo' guénoniano-schuoniano". Perenialismo é a tese de que todas as grandes religiões guardariam, no fundo, a mesma verdade metafísica, diferindo só na forma exterior. Olavo aproveitou uma parte da obra de René Guénon e recusou outra, e o perenialismo ficou, por declaração dele, do lado recusado.
A briga com Orlando Fedeli
Dentro do campo católico, a disputa que o obituário da Gazeta do Povo faz questão de lembrar é a que ele travou com Orlando Fedeli, professor ligado à associação cultural Montfort, de linha tradicionalista. Em 2001, segundo as respostas de Olavo, Fedeli o acusou de gnosticismo, a heresia antiga que coloca um conhecimento secreto acima da fé, e de defender a superioridade do conhecimento sobre a fé.
Olavo respondeu em dois textos datados de 18 de julho de 2001. Em "Nota sobre fé e conhecimento", ele distingue dois sentidos da palavra fé. Num deles, fé é mera crença; nesse sentido, escreve, "afirmei – e reafirmo – a superioridade do conhecimento em relação à fé". No outro sentido, a fé sobrenatural, que a Igreja ensina, já seria ela mesma uma forma eminente de conhecimento, e a crítica de Fedeli confundiria as duas coisas. Em "Fé, ciência e ideologia: o fundo da questão Fedeli", ele separa gnose, gnosticismo no sentido do filósofo Eric Voegelin e heresia gnóstica, e resume a própria posição numa frase seca: "Contento-me em não ser um gnóstico na acepção tradicional e voegeliniana do termo."
O site da Montfort publicou, também em 2001, uma resposta de Fedeli que reproduz uma explicação de Olavo: ele dizia examinar o que aprendera com Schuon, conservando uma parte e descartando outra. Essa seleção ajuda a entender por que as críticas a Schuon coexistem com referências favoráveis a aspectos de sua obra.
A relação entre fé e razão também aparece na encíclica Fides et ratio, de João Paulo II, publicada em 1998. O papa as apresenta como duas asas que conduzem o espírito humano à verdade. No debate com Fedeli, Olavo distinguia a fé reduzida a crença da fé sobrenatural, que entendia como forma eminente de conhecimento. Expor essa resposta permite compreender sua defesa, sem resolver por antecipação as objeções doutrinais feitas pelo interlocutor.
A volta à Igreja Católica
Os obituários de janeiro de 2022 descrevem Olavo como ligado ao catolicismo romano. A BBC News Brasil registra sua reaproximação da Igreja, a participação na missa e o hábito de rezar antes das refeições; a Gazeta do Povo também assinala sua adesão declarada ao catolicismo. É nesse sentido biográfico que se pode responder que ele era católico nos últimos anos. Isso não equivale a uma aprovação eclesiástica de todas as suas posições. Olavo morreu em 24 de janeiro de 2022, em Richmond, na Virgínia.
Também na obra dos últimos anos aparecem temas próprios da tradição cristã. Um exemplo é o curso que virou o livro A consciência de imortalidade: segundo a ficha da Vide Editorial, as aulas foram dadas em outubro de 2010 em Colonial Heights, na Virgínia, transcritas e organizadas por Ronald Robson e revisadas pelo autor.
Daí não decorre que todo leitor católico concorde com tudo o que ele escreveu sobre religião. A disputa com Fedeli mostra o contrário. Como as posições mudaram com o tempo, a obra de Olavo de Carvalho só mostra esse percurso religioso quando lida em ordem de data: as respostas a Fedeli são de 2001, o artigo sobre Schuon é de 2008 e o relato da tariqa, de 2018.
Leitura recomendada
- Olavo de Carvalho, A consciência de imortalidade Amazon ↗ (Vide Editorial).
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