Na noite de 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro fez sua primeira transmissão ao vivo como presidente eleito. Sobre a mesa, diante da câmera, havia quatro livros: a Constituição, a Bíblia, as memórias de Winston Churchill sobre a Segunda Guerra e O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, coletânea de artigos de Olavo de Carvalho, segundo os registros da Folha de S.Paulo, de O Globo e da GZH publicados no dia seguinte.
A relação entre Olavo de Carvalho e Bolsonaro foi pública entre 2018 e 2022: o escritor apoiou a candidatura, foi associado por jornais à indicação de dois ministros, recebeu do governo o grau de Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, passou a criticar o presidente com dureza e, quando morreu, em janeiro de 2022, teve luto oficial decretado.
Antes da eleição
Olavo vivia nos Estados Unidos quando a candidatura de Bolsonaro ganhou força. Em entrevista à BBC News Brasil em dezembro de 2016, ele descreveu assim o próprio papel no surgimento de uma nova direita: "Eu quis que uma direita existisse, o que não quer dizer que eu pertença a ela. Fui o parteiro dela."
Depois do atentado a faca contra Bolsonaro em Juiz de Fora, em setembro de 2018, Olavo gravou um vídeo dirigido ao candidato. A GZH registra uma frase dele: "Não só você já ganhou essa eleição...". Em outubro, veio a live da vitória com o livro sobre a mesa. Segundo O Globo, O mínimo reúne 193 artigos publicados entre 1997 e 2013 e saiu pela editora Record.
As indicações de 2018
Em novembro de 2018, dois nomes do futuro primeiro escalão foram ligados a Olavo pela imprensa.
O primeiro foi o diplomata Ernesto Araújo, escolhido para o Itamaraty. A Folha, em 14 de novembro de 2018, noticiou que Araújo tinha sido indicado por Olavo. Segundo o jornal, Olavo recomendou um artigo do diplomata, "Trump e o Ocidente", publicado nos Cadernos de Política Externa no segundo semestre de 2017, e Filipe Martins encaminhou o texto ao entorno de Bolsonaro. A Folha tratou a escolha como vitória da ala ligada ao deputado Eduardo Bolsonaro.
O segundo foi o filósofo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, anunciado por Bolsonaro em 22 de novembro de 2018 como ministro da Educação. Duas semanas antes, em 7 de novembro, Vélez havia publicado no próprio blog o texto “Um roteiro para o MEC”. Nele, reconheceu Olavo de Carvalho como uma das pessoas que o haviam indicado para a possível escolha pelo presidente eleito. A Folha registrou que Olavo, em outubro, tinha defendido seu nome para a pasta.
Vélez ficou pouco mais de três meses no cargo. Em 8 de abril de 2019, segundo o G1, Bolsonaro o demitiu e nomeou Abraham Weintraub. No obituário de Olavo, a BBC News Brasil cita Ernesto Araújo e Weintraub como discípulos dele que chegaram ao primeiro escalão.
2019: o jantar em Washington e a condecoração
Em 17 de março de 2019, na viagem oficial de Bolsonaro aos Estados Unidos, Olavo participou de um jantar na residência do embaixador brasileiro em Washington, Sergio Amaral. UOL, Poder360, O Globo e O Estado de S. Paulo registraram que ele se sentou à direita do presidente, com o americano Steve Bannon do outro lado. O Estadão noticiou que, mais cedo naquele dia, Olavo tinha chamado o vice-presidente Hamilton Mourão de "idiota" e dito que o governo não duraria seis meses se continuasse daquele jeito.
As críticas de Olavo a integrantes do governo continuaram. Em 22 de abril de 2019, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, leu uma nota segundo a qual as declarações recentes de Olavo "não contribuem" para o governo, conforme o G1. Dias depois, ainda segundo o G1, Mourão disse que Olavo deveria se limitar à função de "astrólogo", e Olavo respondeu ao vice.
No Diário Oficial da União de 30 de abril de 2019, edição extra, Olavo Luiz Pimentel de Carvalho aparece admitido no grau de Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, no quadro suplementar. O mesmo decreto incluía o vice-presidente Mourão e os ministros Sergio Moro e Paulo Guedes, entre outros, e admitia Flávio e Eduardo Bolsonaro no grau de Grande Oficial, como registraram Folha, G1, Poder360 e O Globo em 1º de maio de 2019.
2020: as críticas públicas
Na noite de 18 de março de 2020, Olavo escreveu numa rede social, segundo a CartaCapital: "Eleito para derrubar o sistema, o Bolsonaro, aconselhado por generais e políticos medrosos, preferiu adaptar-se a ele. Suicídio." Em maio, a BBC News Brasil registra uma defesa: "Você pode chamá-lo de burro, de mau administrador, mas de ladrão você não vai conseguir."
A ruptura mais explícita veio num vídeo de 6 de junho de 2020. A Folha e o Poder360 noticiaram no dia seguinte que Olavo chamou o presidente de "inativo" e "covarde", ameaçou "derrubar" o governo, disse que Bolsonaro nunca tinha sido seu amigo e rejeitou a condecoração recebida um ano antes, com palavras que os jornais reproduziram e que não repetimos aqui. No dia seguinte, segundo a Folha, Olavo escreveu no Facebook: "Ainda estou do lado do Bolsonaro. Lutarei por ele com todas as minhas armas. Mas ele que não espere mais de mim palavras doces que só podem ajudá-lo a errar."
Em 13 de novembro de 2020, a BBC News Brasil registra um tuíte dirigido ao presidente: "Se você não é capaz nem de defender a liberdade dos seus mais fiéis amigos, renuncie". Depois, escreveu: "Não pedi renúncia nenhuma, pus a coisa no condicional."
Apoio e críticas nos últimos anos de Olavo
As declarações dos últimos anos combinam críticas públicas e repetidas ao presidente com manifestações de apoio. Em dezembro de 2021, numa transmissão com Ricardo Salles e Abraham Weintraub, Olavo disse que Bolsonaro o tinha usado como garoto-propaganda, segundo a BBC News Brasil. A Gazeta do Povo registra que, numa live de 28 de dezembro, ele atribuiu a si mesmo parte da viabilidade política de Bolsonaro e o descreveu como “excelente administrador, um homem honesto”, embora “péssimo” para se defender. São avaliações feitas por Olavo, e não conclusões deste artigo sobre o governo.
Essa sequência de apoio, críticas e reafirmações de apoio não cabe numa narrativa de rompimento definitivo. Os episódios permitem acompanhar uma relação pública marcada por conflitos, sem supor que cada declaração tenha encerrado os vínculos políticos entre os dois.
A morte e o luto oficial
Olavo de Carvalho morreu na noite de 24 de janeiro de 2022, em Richmond, na Virgínia, segundo os dados biográficos do site oficial. A BBC News Brasil registra que ele tinha anunciado no Telegram, em 15 de janeiro, que estava com covid.
Após a morte, Bolsonaro publicou uma homenagem em que chamou Olavo de grande pensador e destacou sua influência sobre brasileiros. O Decreto nº 10.945, de 25 de janeiro de 2022, declarou luto oficial de um dia em todo o país.
O que vem antes de 2018
Parte da obra de Olavo foi escrita antes de qualquer relação com Bolsonaro, e as datas permitem separar uma coisa da outra. As colunas reunidas em Cartas de um terráqueo ao planeta Brasil começam em 2005, e o curso que deu origem a O horizonte de consciência do brasileiro foi ministrado em 2016, na Virgínia, segundo a Vide Editorial. Lidos nessa ordem, esses textos permitem conferir o que a obra de Olavo de Carvalho já sustentava antes da campanha de 2018, sem depender do que se disse sobre ela durante o governo.
Leitura recomendada
- Olavo de Carvalho, O horizonte de consciência do brasileiro Amazon ↗ (Vide Editorial).
- Olavo de Carvalho, Apoteose da vigarice: Cartas de um terráqueo ao planeta Brasil, vol. I Amazon ↗ (Vide Editorial).
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