Xavier Zubiri (1898–1983) foi um filósofo espanhol que procurou repensar duas perguntas inseparáveis: o que significa conhecer e o que significa algo ser real. Sua resposta mais conhecida aparece na expressão inteligência senciente. Com ela, Zubiri rejeita a imagem de que primeiro recebemos sensações sem inteligência e, somente depois, o intelecto lhes acrescenta conceitos.

A dificuldade de sua obra está no vocabulário técnico e no modo como conceitos familiares — realidade, essência, inteligência e verdade — recebem sentidos próprios. Por isso, uma apresentação útil precisa evitar tanto o jargão sem explicação quanto a redução de Zubiri a um simples “realista”.

Vida e formação

Nascido em San Sebastián, em 1898, Zubiri estudou filosofia e teologia e foi ordenado sacerdote em 1921. Mais tarde deixou o estado clerical e se casou com Carmen Castro. Sua formação filosófica passou pela escolástica, pela fenomenologia de Edmund Husserl e pelo pensamento de Martin Heidegger. Também acompanhou de perto a ciência de seu tempo, interesse que aparece em seus cursos e ensaios sobre natureza, matéria, evolução e conhecimento.

Depois de lecionar em Madri e Barcelona, afastou-se da universidade em 1942. A partir de então, desenvolveu grande parte de seu trabalho em cursos privados. A Fundación Xavier Zubiri registra esse período de aulas e seminários como decisivo para a maturação de sua filosofia. Ele morreu em Madri, em 1983.

Da sensação à inteligência senciente

Na tradição filosófica, sensação e inteligência foram frequentemente apresentadas como duas faculdades sucessivas: os sentidos forneceriam dados, e o intelecto formaria juízos sobre eles. Zubiri sustenta que, no ser humano, sentir e inteligir constituem um único ato. Nós sentimos as coisas já como reais.

Isso não quer dizer que cada percepção revele de imediato tudo o que a coisa é. Significa que aquilo que aparece se impõe como algo que possui caráter próprio, ou, no termo espanhol empregado por Zubiri, algo de suyo. A realidade é, em primeiro lugar, essa “formalidade” com que o conteúdo se apresenta na apreensão. A tradução inglesa de Inteligência senciente descreve essa apreensão primordial como direta, imediata e unitária.

Essa tese evita dois atalhos. Zubiri não afirma que a percepção seja infalível, nem que conhecer se limite à experiência imediata. Ele distingue três modos de intelecção: a apreensão primordial de realidade, o logos e a razão. Na primeira, algo se atualiza como real; pelo logos, procuramos determinar o que essa coisa é entre outras; pela razão, investigamos seu fundamento e sua estrutura profunda. Ciência e filosofia pertencem a esse movimento de busca, no qual hipóteses podem ser corrigidas.

Realidade, essência e verdade

Em Sobre la esencia Amazon , publicado em 1962, Zubiri examina a constituição das coisas reais. Ele evita identificar essência com uma definição abstrata ou com uma substância imóvel. Fala em sistemas de notas que constituem uma realidade e permitem compreender sua unidade. A obra é importante, mas a exposição mais madura de seu pensamento veio na trilogia Inteligencia sentiente Amazon .

Os três volumes são Inteligencia y realidad Amazon (1980), Inteligencia y logos Amazon (1982) e Inteligencia y razón Amazon (1983). Segundo a apresentação da fundação dedicada ao filósofo, a trilogia esclarece questões deixadas abertas em Sobre la esencia Amazon e oferece a forma sistemática de seu pensamento tardio.

A verdade também se organiza nesses níveis. Na apreensão primordial, “verdade real” designa a atualização do real na inteligência. No logos e na razão, há afirmação, verificação e possibilidade de erro. Assim, reconhecer um contato originário com a realidade não elimina o trabalho crítico; é justamente o que dá ao conhecimento algo a investigar.

O que Zubiri chama de religação

Outro conceito central é a religação. O termo não designa simplesmente uma religião institucional ou uma prova lógica da existência de Deus. A vida humana, para Zubiri, realiza-se apoiada no poder do real: precisamos fazer-nos como pessoas entre possibilidades que a realidade oferece e impõe. Esse vínculo constitutivo é a religação.

A partir dela, Zubiri formula o problema de Deus, sobretudo em El hombre y Dios Amazon , publicado postumamente em 1984. A passagem da religação a uma afirmação sobre Deus exige argumentação; não deve ser tratada como uma dedução automática nem como mera emoção religiosa.

Por onde começar

Naturaleza, Historia, Dios Amazon reúne ensaios de diferentes fases e oferece uma entrada mais ampla. Cinco lecciones de filosofía Amazon apresenta leituras de outros filósofos, embora não seja uma síntese direta do sistema de Zubiri. Para o núcleo de sua proposta, o caminho passa por Sobre la esencia Amazon e pela trilogia da inteligência senciente.

A contribuição de Zubiri está em recolocar conhecimento e realidade no mesmo problema. Nós não partiríamos de representações fechadas dentro da mente para depois alcançar o mundo. Já estaríamos instalados na realidade pela própria estrutura do sentir humano, e o logos e a razão aprofundariam esse contato inicial. É uma tese exigente, cuja força aparece melhor quando seus termos são lidos no contexto da obra, e não como slogans isolados.